Cornishman – O gigante vermelho que adormeceu na costa

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cornishmanNaquela manhã corria uma ligeira brisa e era cedo. Tínhamos uma missão a cumprir. O naufragado monstro de metal veio enfiar-se (não sei bem quando, nem como) pelas areias da costa. Ficou como se ainda funcionasse, imponente, de quilha enfiada na areia, perto do núcleo do Farol. Portentoso e assustadoramente inútil. Parecia um navio fantasma dos tempos modernos. Alguma ferrugem, alguma tinta e o choro do ferro abandonado às ondas.

Nós, adolescentes e cheios de livros de aventuras nos corações, pusemo-nos a caminho. Se aquele gigante férreo pintado de vermelho e branco por ali encalhou, o nosso dever principal era inspecionar cada detalhe da sua imobilidade, desvendar os mistérios do convés e descer às suas múltiplas cabines, provavelmente atulhadas de segredos.

Escalámos com os nossos corpos de adolescentes o “Cornishman”. Foi difícil. Subimos em conjunto a custo, e nem vou referir o respeito que a altura impunha. Era a nossa missão, não podíamos deixar que o material nos levasse a melhor e nem pensar em estatelar-nos, pois a queda dali seria mais que dolorosa. Talvez fatal.

Já ali tinham estado pessoas pouco asseadas. O cheiro era nauseabundo. As cabines, quase todas meio alagadas, tresandavam a óleos, a águas paradas e sinceramente nem quero pensar ao quê mais. Não obstante, a vista no topo, em cima da ponte era extraordinária. Parecia que se abatia sobre os nossos ombros aquele céu azul e que não existia mais nada a não ser a cor turquesa do mar fundindo-se numa imensidão de azul-céu. Simultaneamente, a leveza da luz e o peso da responsabilidade de se estar num local com uma vista de tirar o fôlego. Em três letras: uau!

Desse gigante “Cornishman” as autoridades retiraram o combustível poluente. Foi impossível tirar a carcaça de ferro toda, que se foi degradando sozinha, na sua maior parte coberta pela areia.

Hoje, se existe, deve ser um pedaço de material enegrecido das algas, um esqueleto de objetos pontiagudos emergentes, que não deixam entrever a grandeza do monstro que por ali dormiu todos estes anos.

Se ainda não retiraram os seus restos, então pode constituir um perigo para os banhistas, tendo em conta que é ferro, o material que as algas já trataram de cobrir. E se antes ele nos espreitava, a muitos metros acima das nossas cabeças, teremos de cuidar para não o pisar.

Selma Nunes

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