Mensagem de Natal do Bispo do Algarve: ‘Celebrar o Natal’ Acolher, Promover e Defender a Vida!

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Aos meus caros diocesanos e todos os que nos visitam e passam entre nós esta quadra festiva, dirijo uma mensagem fraterna com o convite a celebrarmos o Natal como a grande festa da vida, iluminados pela luz que brilhou na noite de Belém.

Na frágil criança de Belém, simbolicamente presente em todos os presépios do mundo, contemplamos um Deus que decide assumir o que nós somos, para que nós tenhamos acesso ao que Ele é.

A vida que brota do mistério da encarnação do Verbo de Deus, ajuda-nos a entender, de modo mais pleno, a nossa humanidade, bem como os valores que, quando acolhidos, defendidos e promovidos, contribuem para tornar este mundo mais solidário e mais fraterno. Deste modo, a fraternidade cristã não se fundamenta, sem mais, numa igualdade de direitos, mas num dom do Alto, dom de Deus que é nos dado e nos capacita para nos acolhermos uns aos outros e juntos construirmos um mundo mais justo para todos.

1. Contrastam com o espírito e os valores do Natal todas as guerras que persistem em diversos países, nomeadamente a guerra na Ucrânia, implacável na sua ação destruidora de bens e de vidas humanas inocentes, cujas consequências chegam até nós, com a subida dos preços dos bens de primeira necessidade, provocando o aumento da pobreza.

No próxima noite de Natal cumprem-se dez meses do seu início. Recorda-no-lo o Arcebispo da Igreja Greco-Católica de Kiev, Sviatoslav Schevchuk, em carta dirigida ao Presidente da CEP e a todos os bispos portugueses.

Nela descreve o sofrimento, a destruição e a morte provocados por esta guerra “inimaginável no início do terceiro milénio”; reconhece o apoio e a solidariedade dos diferentes países da Europa e do resto do mundo, bem como o seu verdadeiro amor cristão, manifestado no acolhimento aos refugiados – “cada gesto da vossa solidariedade para connosco é sinal da misericórdia divina e da esperança em como Deus nunca nos deixa sozinhos”; testemunha o modo como as comunidades cristãs ucranianas se envolveram com os seus párocos na proximidade aos mais atingidos e na resposta social, de vária ordem, aos mais necessitados.

A arquidiocese de Kiev vive, como acontece entre nós, do apoio dos seus membros, impossível de realizar neste ambiente de guerra e de extrema necessidade. Por isso o Arcebispo Sviatoslav dirige-nos o pedido de um “urgente apoio financeiro”, pensando de modo particular na continuidade do auxílio aos mais necessitados, na manutenção do Seminário Maior (105 seminaristas) e na sustentação do clero constituído por 370 sacerdotes, que continuam à frente das comunidades desta vasta arquidiocese, constituída por quatro distritos e dez regiões entre as quais as que a guerra nos deu a conhecer: Donetsk, Lugansk, Zaporijia; Karkiv, Odessa, Mykolaiv.

Apelo à conhecida generosidade das comunidades cristãs algarvias, bem como a todos quantos, de boa vontade a elas se unirem, na resposta a este pedido. Os vossos Párocos indicar-vos-ão o modo de o fazer, certos de que assim contribuireis para minorar o sofrimento dos nossos irmãos ucranianos. Que a vossa ajuda possa significar para cada um de vós, mais um lugar à mesa na ceia de Natal com a vossa família.

2. Contrasta, igualmente, com o espírito e os valores natalícios a recente aprovação parlamentar da eutanásia e do suicídio assistido, ainda sujeita aos trâmites legais para a sua aprovação definitiva. Estranhamos como os que legislam e nos governam não colocam o mesmo empenho e a mesma determinação, em dotar o nosso sistema de saúde de cuidados paliativos acessíveis a todos, tão fundamentais para combater e aliviar o sofrimento. Infelizmente constituem verdadeira “miragem” entre nós, levando-nos a considerar o recurso à eutanásia e ao suicídio assistido, como uma solução mais rápida e menos onerosa. Que ninguém se sinta constrangido a este recurso por falta da devida assistência. Acompanhar e confortar os que sofrem e os que deles cuidam, ajuda a restabelecer a esperança e é sinal de dignificação da vida humana até ao seu termo natural. O acolhimento, a defesa e a promoção da vida situa-se para além da ordem legislativa e jurídica.

Tendo presente, a este propósito, a recente Nota da CEP (7.12.2022), faço eco do seu apelo para que “as famílias e os profissionais de saúde, a quem deve ser sempre garantida a objeção de consciência, rejeitem as possibilidades abertas pela legalização da eutanásia e do suicídio assistido e nunca deixem de testemunhar que a vida humana é sempre um dom precioso, em todas as suas fases, desde a conceção até à morte, que nunca deve ser intencionalmente provocada”.

O Natal vem confirmar-nos de que Deus é fonte de vida. Ele vive desde sempre e para sempre. E também nós “n’Ele vivemos, nos movemos e existimos” (At 17,28). O dom divino da vida atinge a sua expressão máxima em Jesus Cristo. Comunicar a vida e fazer viver é a razão da sua missão: “Eu vim para que tenham vida e a tenham em abundância” (Jo 10,10). Ele, como Filho eterno de Deus, participa, desde a eternidade, na plenitude da vida: “n’Ele estava a vida e a vida era a luz dos homens” (Jo 1,4). Vida que se torna presente na humanidade pelo seu nascimento, e atinge a sua plenitude na ressurreição.

Acolher, promover, defender, festejar a vida como o dom por excelência de Deus é a grande lição que reaprendemos em cada Natal e em cada nascimento de um novo ser humano.

Desejo a todos um Natal Feliz e um Novo Ano abençoado pela presença desde Deus-Menino, fonte da Vida plena, que vos convido a acolher na alegria, na esperança e na paz.

† Manuel Quintas, Bispo do Algarve

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