Girafas ou Elefantes | Ainda o beijo

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O-Beijo-Quadro

Nos últimos dias só se ouviu falar “do beijo”: o de Luis Rubiales (ex-presidente da Real Federação Espanhola de Futebol) a Jenni Hermoso (jogadora da seleção feminina de futebol de Espanha, seleção que se sagrou campeã do mundo recentemente). Aliás, o beijo aconteceu no momento da celebração da vitória.

Tanta tinta já correu por este beijo: não foi abuso, segundo Rubiales, porque faria o mesmo às suas filhas; foi abuso, segundo a sociedade e o governo espanhol, que exigiram a demissão do senhor; não foi abuso, segundo a mãe do dito, que fez greve de fome fechada numa igreja; foi abuso, segundo as jogadoras, que deram nota de já terem apresentado queixas noutras ocasiões; não foi abuso, porque Jenni Hermoso brincou com a situação na viagem de autocarro……..

Há opiniões para todos os gostos e feitios e as discussões acontecem, como se o assunto fosse nacional e determinante, tipo a falta de docentes que há este ano e que faz com que milhares de alunos não tenham professor a pelo menos uma disciplina; ou a escassez de alojamento, que dificulta a vida a tantos e gera um fenómeno de aumento exorbitante de preços, que só exploram a vida difícil e precária de muitos; ou o aumento das taxas dos empréstimos, que colocarão os portugueses em situação de grande dificuldade e, imensos até, a passar fome, estou certa.

É um assunto sério e grave, o beijo, não o estou a diminuir. Questiono-me sobre qual a razão para tanta dificuldade em compreender que o óbvio era o senhor demitir-se, sem esperar que o escândalo aumentasse; pergunto-me o que teria acontecido se um dirigente desportivo da seleção masculina vencedora do campeonato do mundo tivesse beijado na boca um jogador; interrogo-me sobre a dificuldade que persiste em entender-se que o espaço intimo de cada um deve ser respeitado, seja em que momento for e que o choque de ser beijado sem se esperar, pode gerar um conflito muito significativo de emoções e de ideias, precisamente, porque falamos de “choque”.

Se procuramos educar e estimular os valores do respeito e da igualdade, não vejo o porquê de tanta discussão, nem a não assunção de responsabilidades por quem de direito. E, por outro lado, andamos, como sempre, ao sabor das ondas e das marés, falando do que está na moda, ao invés de raciocinarmos e refletirmos sobre o que nos ajudaria a melhorar o mundo, as relações humanas, os nossos cotidianos, o planeta.

O beijo, que é, quando partilhado e consentido, um gesto de afeto, tornou-se motivo de falatório excessivo e, em tantos casos, pouco amadurecido. E tirou, a um momento de glória das mulheres da seleção espanhola, a possibilidade de o viverem com a dignidade e a alegria que mereciam. E a culpa não é só dos protagonistas. É de todos nós, que alimentámos este “converseio” (como dizem os nossos irmãos brasileiros) oco e bacoco, que não tem consequências, sobretudo, na nossa forma de agir, no que verdadeiramente deveríamos defender, na mudança que se deveria operar no nosso pensamento.

Será girafa ou elefante?!…. Assim anda este nosso mundo.

Sandra Cortes-Moreira *

Licenciada em Comunicação Social, pela FCSH da Un. Nova de Lisboa, Mestre em Comunicação Educacional, pelas Faculdades de Letras e de Ciências Humanas e Sociais das Un. de Lisboa e Algarve e Mestre em La Educación en la Sociedad Multicultural pela Universidad de Huelva. É doutoranda em Educomunicación y Alfabetización Mediática do Doutoramento Interuniversitário em Comunicação, pela Universidade de Huelva/Espanha, sendo o seu tema de investigação a Turism Literacy

Técnica Superior de Línguas e Comunicação na Câmara Municipal de Faro, é também Assessora do Gabinete de Informação da Diocese do Algarve, membro da equipa da Pastoral Diocesana do Turismo e secretária da Pastoral do Turismo – Portugal (PTP).