Girafas ou Elefantes | “Poucos, mas Bons”

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Por estes dias tenho refletido bastante sobre o que é a amizade, em que difere de outros sentimentos, ou como pode ser conciliado com eles.

Os gregos da antiguidade, que continuam a ser referência do pensamento ocidental, falavam principalmente de três tipos de relacionamento, de “amor”:

O Eros (não o anjinho que atira setas, mas cujo nome daqui saiu), o amor romântico, era associado à paixão, ao prazer, à atração física e ao sexo, mas apresentava-se, igualmente, como a capacidade de apreciar a beleza da alma, já que quem ama, busca no outro a verdade através do Eros.

O Philia, o “gostar de”, a amizade, a lealdade, o bem-querer, a família e a comunidade, ou seja, toda a ação e sentimento que visa o cuidado do outro, com reciprocidade e, até, pureza, no sentido de que quem possui Philia não o faz de ânimo leve ou passageiro. É algo forte, seguro, assente na generosidade, no fazer algo bom, sem esperar nada em troca, a não ser o mesmo sentimento. E este tipo de gostar, estaria, por certo, presente e unido a todos os demais, conforme o grau de profundidade da ligação que se estabelecia entre duas pessoas, incluindo os amantes e companheiros de vida, incluindo os colegas de trabalho, incluindo o estranho por quem passamos e a quem ajudamos, como o bom samaritano.

E, por fim, o Ágape, o amor universal por todos os seres vivos e não vivos, o amor que tudo liga e que representa o infinito sentimento que Deus (para os crentes) terá por todos nós, exigindo total fidelidade e que Jesus, na célebre passagem do Novo Testamento, usa para questionar Pedro: «“Simão, filho de João, amas-me (ágape) mais do que estes outros?” Pedro respondeu: “Sim, Senhor, tu sabes que eu te amo (philia)” (João 21:15-17)». Também recordaremos que Pedro só percebeu completamente o sentido da pergunta quando negou Cristo três vezes, compreendendo, por fim, o sentido de autossacrifício e amor ao próximo, amigos e inimigos, que está implícito neste nível de amor

Parto desta premissa, desde já: vejo a amizade como o fundamento daquilo que devemos construir neste mundo. Ela será o fermento e a seiva, suporte ao longo dos anos que por cá andarmos, pois, o seu contrário será a solidão e o abandono. A vida vai-nos oferecendo várias oportunidades de criarmos tais laços, alguns tão fortes que permanecem para além da vida. “Poucos, mas bons”, escutamos tantas vezes. E a amizade, enquanto escolha livre, é muito mais forte, em alguns casos, do que as ligações familiares.

E este “poucos, mas bons” têm tanto que se lhes diga… Criticamo-nos por não sabermos ser essas pessoas especiais para os outros? Não, por norma, criticamos os outros, que não o são para nós, que nos desrespeitam, que ultrapassam limites, que nos levam por caminhos de desalento e desilusão, nos quais não entra a palavra lealdade. Mas esquecemo-nos de analisar a nossa própria forma de interagirmos, de conservarmos a capacidade de respeitar o outro na diferença, de não nos querermos impor na nossa infinita capacidade de sermos “superiormente superiores” em tudo e no que mais se possa imaginar.

Incluindo as relações de casal. Quantas se desfazem por simples egoísmo, porque o amor philia não se compreende na perfeição, nem se percebe que amar um companheiro de vida é ter todas as dimensões possíveis do amor, numa entrega total, que não nos faz querer o eu, mas o nós e, tantas vezes, o tu, primeiro e com toda a força do nosso ser? Será a ação do Philautia, o amor próprio identificado pelos gregos, que pode ser algo extremamente positivo, no qual encontramos a nossa autoconfiança e autoestima; mas também pode surgir como algo muito negativo, revelando o nosso egocentrismo.

E volto a dizer: considero a amizade, que podemos colocar ao nível do philia, a base do que nos une como Humanidade. Mas acredito na superação, acredito no desafio de Cristo a Pedro (ágape), acredito que os casais que se amam, encontram na atração física uma janela para a beleza da alma, para a verdade (eros). Realmente, encontram um espelho, onde podem ver a verdadeira felicidade. Acredito ver nos meus “poucos, mas belíssimos” amigos, a quem muito quero, nos meus pais, na família alargada, a razão de procurar que, quando partir, possa fazê-lo em paz e com a alegria de poder dizer, como, sabiamente disse o poeta Daniel Faria (2019, O Livro do Joaquim, Assírio & Alvim): «Não acredito que cada um tenha o seu lugar. Acredito que cada um é um lugar para os outros».

Será girafa ou elefante?!…. Assim anda este nosso mundo.

Sandra Cortes-Moreira *

Licenciada em Comunicação Social, pela FCSH da Un. Nova de Lisboa, Mestre em Comunicação Educacional, pelas Faculdades de Letras e de Ciências Humanas e Sociais das Un. de Lisboa e Algarve e Mestre em La Educación en la Sociedad Multicultural pela Universidad de Huelva. É doutoranda em Educomunicación y Alfabetización Mediática do Doutoramento Interuniversitário em Comunicação, pela Universidade de Huelva/Espanha, sendo o seu tema de investigação a Turism Literacy

Técnica Superior de Línguas e Comunicação na Câmara Municipal de Faro, é também Assessora do Gabinete de Informação da Diocese do Algarve, membro da equipa da Pastoral Diocesana do Turismo e secretária da Pastoral do Turismo – Portugal (PTP).