Fundação BIAL | Vencedores do BIAL Award in Biomedicine 2023

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Fundação BIAL premeia investigação que demonstra pela primeira vez um novo mecanismo de comunicação entre neurónios e células tumorais.

Estudo premiado proporcionou conhecimentos excecionais na área da biologia celular do cancro, podendo ser considerado um marco no campo emergente da neurociência do cancro.

Uma equipa de 29 investigadores da Alemanha, EUA, Reino Unido e Noruega venceu a terceira edição do BIAL Award in Biomedicine, um prémio promovido pela Fundação BIAL no valor de 300 mil euros, que pretende distinguir um trabalho publicado na área da biomedicina de excecional qualidade e relevância científica.

Liderado pelos investigadores Varun Venkataramani (primeiro autor), Frank Winkler e Thomas Kuner (coautores seniores), da Universidade de Heidelberg e do Hospital Universitário de Heidelberg, na Alemanha, o estudo Glutamatergic synaptic input to glioma cells drives brain tumour progression, publicado na revista Nature em setembro de 2019 (ver aqui), representa uma investigação importante para a compreensão do cancro humano, concretamente do glioblastoma, um tipo de tumor cerebral muito agressivo, com um tempo médio de sobrevivência de apenas 1,5 anos, mesmo com tratamento de última geração.

Neste trabalho, os autores demonstraram que os glioblastomas e outros tipos de gliomas incuráveis são capazes de se integrar na função do cérebro, tendo sido descoberto que informações de células cerebrais saudáveis, normalmente usadas em funções como o pensamento e a memória, impulsionam a progressão dos gliomas.

Descobertas que, na perspetiva do neurocientista e presidente do Júri do BIAL Award in Biomedicine, Ralph Adolphs, “representam um avanço importante e surpreendente na compreensão de como o cancro do cérebro progride, ao descrever um novo canal de comunicação entre os neurónios e o tumor, podendo ser consideradas um marco no campo emergente da neurociência do cancro, além de sugerirem caminhos específicos para o tratamento”.

Os neurónios normalmente comunicam entre si através de contactos muito específicos – as sinapses – e libertam substâncias químicas que permitem que um neurónio excite outro. Os autores começaram por encontrar características estruturais em tumores cerebrais que tinham toda a aparência de sinapses. Além disso, estas características sinápticas surgiam nos tumores cerebrais mais malignos. Em seguida, descobriram que essas sinapses entre os neurónios e as células cancerígenas eram funcionais e forneciam ao tumor em crescimento um contributo nutritivo do cérebro, o que estimulava o crescimento e a malignidade do tumor.

Estas descobertas ajudam a explicar algumas das características bizarras dos tumores cerebrais, como o facto de se poderem “entrelaçar” por todo o cérebro, enquanto outros tipos de tumor simplesmente formam um nódulo duro ou uma massa. Este facto também pode explicar – pelo menos em parte – por que razão os tumores cerebrais muitas vezes não são detetados e apresentam poucos sintomas.

As especificidades da transmissão sináptica encontradas também apontam caminhos para novas terapêuticas específicas que podem ser usadas no tratamento dos tumores cerebrais.

Para Ralph Adolphs “o artigo vencedor desta edição representa um estudo chave para a neurociência do cancro, ilustrando um tema fundamental e absolutamente crítico para o cancro em geral. As células cancerígenas não podem simplesmente proliferar – têm de sequestrar processos biológicos saudáveis e integrar-se no funcionamento normal dos tecidos. Em nenhum lugar isto é mais flagrante – e surpreendente – do que nos tumores cerebrais estudados no presente artigo”.

A investigação premiada fornece ainda uma nova explicação para o motivo pelo qual a epilepsia e a progressão do tumor são frequentemente observadas juntas: a epilepsia pode ser uma causa, e não uma consequência, da progressão do tumor.

“A biologia do cancro continua a ser um campo muito complexo, mas este artigo fornece uma das caracterizações mais surpreendentes e profundas dos mecanismos de um dos tipos mais devastadores de cancro do cérebro”, remata o neurocientista.

O trabalho vencedor foi escolhido entre 70 artigos nomeados como os trabalhos de investigação mais importantes publicados nos últimos 10 anos na área da biomedicina. Os artigos nomeados representavam estudos desde investigação básica a ensaios clínicos, incluindo trabalhos nas áreas das neurociências, oncologia, reumatologia, doenças metabólicas e infeciosas.

De salientar que dois dos cientistas vencedores da última edição do BIAL Award in Biomedicine, Katalin Karikó e Drew Weissman, foram distinguidos com o Prémio Nobel da Fisiologia ou Medicina 2023, pelas suas descobertas que permitiram o desenvolvimento de vacinas eficazes baseadas na tecnologia de mRNA para prevenir a COVID-19.

LPM