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Sogra, avó e velha

Textos de todas as cores
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Até ali era eu a primeira bailarina de todas as festas. Pelo menos pensava que era e comportava-me como tal. Naquele inverno caí das nuvens.

- A minha sogra..

Na noite em que o spit-fire ficou a baloiçar-se na lomba de uma rua em obras e fui gentilmente convidada a arregaçar o casaco e empurrar o carro…  « É o peso da tua mãe…»… Não sei explicar a afronta.

Comprei naquele ano umas roupas clássicas, cuecas até ao pescoço, saias pelo tornozelo e ofereci às pobrezinhas toda a minha lingerie da La Perla em renda preta.

Como o casal estava longe fui-me esquecendo, até que :  «Vais ser avó!». Quase desmaiei. Fui a correr ao cabeleireiro plantar um penacho azul no alto da cabeça e a seguir marquei consulta para o Dr. Tallon. Voltei a investir na lingerie, nos decotes, no vestuário para teen-agers. Não me atirariam sem luta para a brigada do carrapito.

Claro que o penacho azul caiu depois de duas ou três lavagens de cabeça (fiquei com uma pelada no local da implantação) e o tratamento para emagrecer acabou num re-engordamento pós dieta.

Anafada, contundida e confundida, fui então entrando pacatamente no jardim enevoado da terceira idade. Passei o umbral da tal porta que me levaria até à muleta, à cadeira de rodas e depois ao portal do cemitério.

A sensação, porém, era incómoda. A menina nasceu e parecia um gato esfolado comparado com as minhas crias. Havia já perdido o jeito para aquelas conversas «ti-ti-brrr». Entrara no clube do «buia-buia» – cãezinhos fofos como algodão. Falei com outras mulheres/mutantes e verifiquei que algumas se regozijavam até com as novas aventuras parentais amando os novos epítetos de sogra, avó, etc. Apeteceu-me açoitá-las.

Entretanto fui atacada pelos fogos da menopausa. Estrogéneos: zero!

Ponto final, pensei.

Com as hormonas em sossego talvez fosse mais fácil aceitar o declínio e quem sabe... vir até a gozar ainda os «prazeres» de que me falavam as minhas amigas, dessa nova espécie de maternidade através da maternidade das nossas filhas.

Esqueci o corpo e comecei a brunir a minha alma com quantas forças me restavam. Atirei-me à escrita. Ingressei em grupos de escritores, frequentei tertúlias virtuais e reais. Li os clássicos, os filósofos antigos e modernos, gastei a rodos nas livrarias. Tive que comprar óculos graduados. Recomecei a escrever.

O exercício da escrita, sobretudo a poética, teve sempre em mim um efeito aliforme e de repente redescubro-me vibrátil, prorrogada no declínio a que me entregara.

Concluo que o acto de escrever é o único que me revigora enquanto decaio e a palavra o meu único órgão incorruptível.

O poema, a palavra enleada no fogo das minhas aflições, devolve-me o amor-próprio. O corpo que me atormenta, o corpo sempre primordial, cede gostosamente o seu sacrário ao prestígio do ser por ser antes de mais – alma.

Estou mais velha mas menos decrépita; Atiro-me às letras, revivendo apetites mais acesos que nunca.

E agora?

Agora, concluo que a arte é o único elixir para retardar o envelhecimento, talvez por ser o único que faz com que os outros e nós mesmos nos olhemos primeiro no invisível e nos descubramos no que é essencial: a beleza imputrescível da alma humana.


Julieta Lima

 

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