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Eutanásia (?)

Textos de todas as cores
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Era um casal jovem, loiro, dentes brancos a rir por tudo e por nada, mãos de veludo e seda sobre o meu corpo ossudo.

Começaram por olhar para mim, primeiro com nojo (?), a minha pele clara estava suja, a minha perna encolhida pela esgana não me ajudava na graciosidade que têm os cachorrinhos imberbes e com o tempo fui encontrando ternura, nos carinhos que me faziam de manhã e à noite, nas caixas de comida que me traziam diariamente, depois no cobertor com que enganava o frio nas noites mais geladas. 

A menina abraçava-me com os olhos brilhantes mais doces do mundo e num dia de inverno pavoroso – o dia mais belo dia da minha vida – resolveram levar-me para dentro de casa.

A princípio tive medo, tudo me parecia um sonho no mar de pesadelos que a dormir ou acordado faziam a minha vida antes de.

Fui feliz com eles e creio que eles comigo. Fui beneficiário da generosidade que há na inocência, fui família antes de eles serem família, chorei de alegria sempre que chegavam do trabalho, chorei quando partiam, dormia a tranquilidade dos justos debaixo do tecto dos justos que eu venerava.

Depois mudámos de casa, de país, e a família deles deixou de ser a minha matilha. Ninguém me ensinou o choro ou o afago de uma criança, ninguém me disse que a matilha agora eram os meninos também e comecei a ficar desconfiado com as pequenas mãos que me magoavam sem tino, os pequenos gestos, os vagidos, os gritos.
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Algumas vezes fui antipático, rocei os dentes por um menino que me sovava com um cavalo de pau ( um pau para todos os efeitos ) e de repente passo do querido animal de estimação para o monstro brutal merecedor de toda a sub-estima.

Comecei a perceber pelos olhares, as conversas e desconversas que, tal como em todas as matilhas, o mais fraco deve ser abatido.

Chorei, ai se chorei no meu cesto, um choro de cão feito de silêncio e resignação. Na minha linguagem rezei ao mesmo deus dos cães que me levou claudicando até à porta desse casal longínquo que me fez seu. Mas estou mais velho e a minha voz com certeza já não consegue atravessar nuvens e corromper ventos. 

Hoje o dono levou-me pela trela. Vai levar-me a passear, vai levar-me só a passear..

Daí a pouco um papel assinado, uns euros, umas mãos enluvadas, uma seringa… e  Adormeço de olhos abertos sobre o espanto. 

Atirado para dentro de um contentor, rezo de novo ao deus dos cães para que a minha matilha consiga dormir sem pesadelos depois de tudo isto.

Migo
(Em nome de todos os animais assassinados porque se tornaram incómodos, inconvenientes, perigosos (?) e às vezes porque simplesmente deixaram de ser amados)

Julieta lima

 

 

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