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Crónica falhada

Textos de todas as cores
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Se alguém deu por falta dela, peço perdão.

É que fui passar uns dias numa aldeia do oeste de Portugal.

A crónica que lá escrevi foi para o lixo para não fazer chorar os meus adorados leitores. O meu acordar de barrete por causa da humidade, a bica numa taberna ratosa (cheirava mesmo a ratos), o ar desconsolado das pessoas a contar-me da morte de x y e z. O abecedário todo não chega para enumerar os óbitos de que tomo conhecimento todas as vezes que lá vou (Natal, Páscoa, fim do verão e pouco mais).

Trata-se de mais uma aldeia tipo lar de idosos-aberto, com umas ruas bordadas de caca de cão, uns ratos atrevidos que se passeiam sem decoro entre os lixos amontoados nos quintais e umas pessoas com uns xalinhos sobre os ombros que de manhã anunciam que está sol, à tarde resmungam que esfriou e à noite batem o dente debaixo dos cobertores que os filhos já não usam.

Aquecedores não, ou porque os «quilo-vóts» do contador não aguentam ou porque a factura da Edp não quer cá saber de velhos congelados.

Há uma auto-estrada a passar ao lado da aldeia mas eles não sabem bem para que serve porque só dois ou três mais atrevidos é que ousam meter-se naquelas barafundas.

«É vuuum, vuuum, mete medo, menina!»
Ali há um coxo que anda de lambreta com a perna de rojo e a muleta entalada entre o capacete e o pescoço, outro que tem um tractor e, claro, não vai à auto-estrada lavrar coisa nenhuma, há o Sr. Manel que conduz um fiat velho só com um braço porque tem o outro encolhido «por modo» de um ataque que lhe deu há tempos e há uns jovens com uns jipes comprados com o dinheiro que alguns desses velhos esfarrapados lhes deram. Uns tinham-no aferrolhado, outros era sobras dos tempos da França, outros porque venderam um pedacinho de terra para ajudar os moços, enfim.

Os leitores vão perdoar se não consegui dar corpo à crónica mas quando uma pessoa sai de casa e se mete por essas estradas cheias de audis e bê-éme-vês a voar junto da nossa carripana, entra na cidade mestra e começa a levar apitadelas porque não sabe bem para onde vai, é insultado com nomes feios e dedos em forquilha…e depois vai por ali e entra naquela aldeia a oeste…Bem, perde-se o pio.

Esqueci-me de contar que antes de ir para a aldeia fui a Lisboa tratar de umas coisas e ao entrar num táxi o condutor perguntou-me «Então e senhora vem d’ onde?». Quando lhe respondi «Venho do Algarve», o homem rodou com viveza a articulação atlanto-axial (quer dizer que parecia uma galinha a virar o pescoço quase a 360º) e massajando depois o côndilo desconjuntado, vociferou: «Coitada!».


E assim perdi a inspiração e fiquei grunha.

Portanto, leitores amados, tereis de esperar que o «muso» me reincorpore e a cretinice se esvaia para que eu possa voltar aos tenteios de uma crónica decente.

Até lá, esforçar-me-ei por:
1)    Descodificar aquele «Coitada!» suspirado pelo taxista;
2)    Reflectir sobre a parvoíce endémica dos tugas;
3)    Descobrir se isto é mesmo endemia cá do burgo ou será já a amostração da grande pandemia que se prepara para entregar o planeta à vertigem de um éden limpo de animais carpidores de destinos e inventores de pecados.


Julieta lima

 

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