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Adeus Farol!

Textos de todas as cores
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Era Abril e o ano talvez 1949 ou 50. 

Levava os olhos inchados de uma noite de choro e as parcas economias escondidas no forro de uma malinha de napa.

Ele entraria em Faro.

Ainda hoje não sei de onde me veio a coragem para abandonar a terra e a família mas sempre ouvi dizer que sonho perseguido é sonho conseguido.

O falajar dos velhos redemoinhava-me na cabeça, parecia-me ouvir lá longe os gritos da minha mãe - Vejam no poço, Ai minha filha, vejam no poço... O poço, sempre que alguém desaparecia.

Só a minha gata se safou quando lá caiu. Conseguiram salvá-la com o balde de zinco de puxar a água. Dizem que os gatos morrem de desgosto quando lhes falta o dono... e a minha mãe? A minha avó? Iriam aguentar o desgosto, a vergonha? A ira do meu pai? Iriam vestir-se de luto?

- Assilha-me essa cabeça, rapariga! Com a tua idade já não te andam aí os pretendentes aos pontapés! Aproveita este rapaz, olha que quando a Comadre Sanita se for p’ra melhor, S.Brás é dele...

Sempre pensei sempre que o principal conduto para uma vida feliz é a coragem. Sem coragem somos cortiça que vai e vem ao gosto das marés e casar, sem amor, com um javardo rico ali ao pé da porta, era a negação não só da coragem como da dignidade que há na obrigação de lutar pela felicidade, nem que durasse um dia. Não me deixaria escravizar por meia dúzia de cabeços no meio de um cerro.

A vender-me, só por um preço com tantos zeros que chegasse para comprar os horizontes onde nunca os meus olhos haviam poisado. Mas... seria possível comprar outra vida, outro destino?

O comboio abrandou ao atravessar o Rio Seco. O Farol espreitava ao longe como um guardião submisso entre o mar e a ria.

farolAdeus Farol. Fechei os olhos. Prometi a mim mesma «nem uma lágrima». Afinal não fugia de mim, não fugia de erros cometidos nem de maus passos. Escapava-me de uma terra que só me prometia calos nas mãos e barrigadas de filhos. Fugia como um pássaro que tivesse descoberto a porta do cativeiro. Voaria com as minhas asas p’ra respirar a liberdade de ser mulher, gente, ser humano pleno. Voaria p’ra longe, qual gaivota na espuma. Voaria com as minhas asas que eu descobrira a gastarem-se na ignomínia de uma ignorância imposta.

E aceite, de espinha dobrada.  

Acordei sobressaltada a meio do Alentejo. E se ele não tivesse embarcado?

-------- tem continuação--------

 

jl

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