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Dona Bibas - A canita

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A minha mãe, dona Bibas,  já não se sentia bem quando a traineira largou mas o mestre Pexinha levou-a ao colo.

- Hás de ter os meninos em cima do mar que são filhos da água.
Arfava desde manhãzinha cedo. Era o primeiro parto.
Ainda bebeu um golinho de leite mas depois, acossada pelas dores, foi deitar-se com a língua de fora e os olhos brilhantes.
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- Tome lá conta da canita, mestre, que ela hoje não deixa vossemecê fazer nada. «enquanto não deitar esse pessoal todo cá para fora, não o deixa da mão».

E o mestre lá foi deitá-la sobre um cobertor  à proa do barco, debaixo de um toldinho armado com duas murjonas e uns bocados de rede.

- Força, menina, força, tá toda deslaiada. Ajude aqui mestre João.

Mestre João era pai de sete filhos. Parteiro deles todos que o dinheiro não era avonde para a comadre.
- Ó mestre João, acuda aqui.

Juntaram-se os homens todos ao pé de minha mãe, em volta redonda. Mestre João afagou-lhe o ventre bojudo, pressionando-o levemente.  Magana, tens a rede pejada, chegou-te bem o Brandanite!

Pararam as máquinas e fundearam o barco. Os rostos agrestes de sol e vento suavizavam-se em feições de criança, crianças possuídas da ternura toda que nem os humanos sabem que possuem.

- Um trapo, mosse, chega-me aí um trapo, desses, debaixo do banco do alvará, e uma pinguinha de água.
- Vá, menina, molha a boca, prantes, prantes, força, vá, força..
- Aí vem um.
-Ah mãe, tá opada.
-Cá está ele. Ena que gordo, parece uma tainha.

Dali a pouco nasceu outro, tudo macho. O Charrão, depois o Zeca, o Ambaneta e o Albine foram logo um a seguir ao outro.

- Tas derrengada, menina. Tá quase, Vá lá, mais um bocadinho.

Faltavam-lhe as forças mas enchiam-na de coragem aquelas mãos puídas de roldanas e adriças. A veemência com que faziam um nó de brandal desfazia-se na brandura com que acarinhavam cada recém-nascido.
- Vá, mulher, vá, mai uma pinguinha de água, vá.

Dali a um belo bocado nasceu a minha mana Carochinha, o mê mano Patude, e no limite do milagre nasci eu.
Com muito custo a minha mãe rompeu aquele saco que quase me sufocava.

- É outra canita mestre, é outra canita, mas esta só tem a orgadura, parece uma formiga ao pé dos irmãos.
Senti o sol a aquecer-me o corpo ensanguentado, como se de uma outra placenta se tratasse e enchi os pulmões de ar.

Ai aquele ar, um ar grosso de maré cheia ali no balanço da água.

A princípio não percebi bem se estaria a nascer ou a morrer. Senti-me entre o nada e o nada, chorei baixinho, um choro de poucas forças.

- Olhe a canita, tem um pé cá e um pé lá. É de pouco corpo, isto, calhando, morre.

Foi quando a mão do mestre Pexinha me ergueu no ar a caminho da camisola aberta – Isto aqui nã morre ninguém – esbravejou.

Era veludo e algodão aquela mão grosseira - Menina, menina...

Voltei a encher-me daquele ar marinhoso e adormeci junto do seu peito crestado de sol.  - Qual morre, qual quê – Era o meu berço a sua mão – Cão seja eu se esta formiga não se fizer na campeôa da ninhada.

E Formiga fiquei de nome e, modéstia à parte, na campeôa me tornei. Um homem bom não se deixa ficar mal…
Com quatro semanas experimentei a água. Que bom, ai que bom. Deus lá sabia o que fez quando nos botou os pés de pato.

- Ah filha de uma magana, nada como um peixe.

Muita rede desensarilhei eu. - Vai Formiga, apanha Formiga – E salvei o Canhambana no mar de Marrocos. Cachão marfado  e a suestada p’lo focinho.... mal podia respirar. Mas filei-o pelo cagote. Vinha todo roxo o desgraçado. Nesse dia até comi camarão. – Menina, linda menina.

Outra vez, no defeso, era, aí uns nove ou dez homens à redinha, dentro da ria, num mar encarnado de salmonetes e dois cabrões de dois marujos à esprêta.

- Mosse ó Pardal, começa a meter o pêxe no chalavar que já aí andam os chules.

Ah, bem dito - bem feito, chegande-mos  a terra já lá estava o Capuche. O da guarda fiscal.

Armou-se logo ali um escabeche pois queria três quartos do pêxe p’ra ele. Os homens que não e ele que sim e quando vejo aquele encante de galapos no ar direito ao Mandelinhe, nã respondi por mim. Atenchei-lhe os dentes num pulso e por mais um pouco ficava-lhe com a mão na boca. Cabrão.

Tanta vida, tanta vida. Aqui na nossa ria mais Formosa do mundo, nas nossas águas e até em Marrocos, em Espanha. No Guadiana  levávamos com a enviada carregadinha de ovos e café, a vela à capa no meio do rio, à espera que viesse do outro lado o bote espanhol buscar a mercadoria.

Era perigoso mas, os homens tinham que levar o sustento para casa. Umas vezes safavam-se, mas noutras, era um dó ver a carga ser deitada ao mar para não serem presos. Eu, cá por mim, preferia mil vezes vê-la ir ao fundo a caminho da barriga dos peixes, do que vê-la escorrer p’ró bandulho dos enflaitados da Capitania.
- Joel, põe a canita no baraço antes que ela se marafe. Eles sabiam. Sabiam que cabrão de farda que alevantasse a voz dentro daquele barco...

Belos tempos. Nada me cansava, era o trabalho, a brincadêra. O Telhude, ah o Telhude, também já lá está.
Agora? É estranha esta pergunta. Agora? Na minha vida não houve nunca tempo para interrogações. Era em frente. Comer, trabalhar, defender o que me parecia certo. Porquê este bem estar quando, sem forças, me pergunto, Agora?
- Ponha a canita ao sol, mestre Pexinha.

O sol. Que brilho, Jesus, que brilho. Consigo vê-lo sem abrir os olhos. O mar, a preia-mar? Mestre Pexinha agarra-me como no primeiro dia, escuto-lhe a voz ao longe, tão perto, no ambanico dos seus braços. Sinto de novo esta bolsa morna a afagar-me o corpo.

- Então, mestre, não chore, homem. A canita havia de lhe morrer um dia.

Já não ouço nada. O mar ao largo do Farol leva-me de volta ao outro lado, lá onde o vento e as gaivotas pastorejam as almas de todos os cães de água.

(Um conto de «Porta sim Porta Não» – de Julieta Lima»
Dedicado a Bibas, a mais linda cadela de água.


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