E... Não Querem Mai'nada?

Solta-mente
Tools
Typography

Imagine-se uma horta comunitária, uma terra fértil onde crescem sementes naturalmente da qual beneficiam muitas pessoas que, de maneira artesanal e sustentável, retiram o que necessitam para a sobrevivência. Isso existe na nossa Ria Formosa. Sempre ouvi chamar de “areais”. Ali, em saudáveis pradarias marinhas, crescem ameijoas juvenis. Os pequenos mariscadores e viveiristas cavam quase à mão, apanham o que podem por maré e vendem ou repovoam os seus pedacinhos de viveiro com as espécies juvenis e autóctones.

Agora imagine-se uma empresa cujo objectivo é arranjar cada vez mais espécies de ostras, ameijoas, para poder estender o seu negócio a um cada vez maior e mais exigente mercado consumidor. Agora imagine-se que essa empresa precisa de mais terra e concorre para ocupar o espaço da “horta comunitária” em muitos hectares, para cultivar ameijoa, ostras e até ostra japonesa.

Não precisamos de imaginar o que acontece a um ecossistema frágil, em que o equilíbrio natural está protegido por leis e decretos, que é zona de banco natural para muitas espécies ameaçadas quando vai ser explorado por uma empresa que até espécies não autóctones quer lá meter a crescer. É o mesmo que implantar uma maternidade a custo zero. Bem, a custo zero para a empresa, pois para tudo o resto o custo é demasiado insustentável. Para o terreno, para a Ria Formosa e para as pessoas que dependem da Ria Formosa para viver e trabalhar.

Até me parecia uma piada de mau gosto quando li. A ser concedido, mesmo após parecer negativo por parte do Parque Natural, ambientalistas, Associação de Moradores, Sindicato de Mariscadores e Viveiristas, se isso for para a frente é sinal de que uma estrela muito forte nos anda a encadear agora às portas do Natal. E essa estrela não é a sustentabilidade ou as preocupações de teor social que deviam estar na ordem do dia. E ficará muito mal a quem assinar por baixo.

Se isso for para a frente, vou concorrer a uma porção do Sol de Agosto no Algarve. E a cada corpo bronzeado no meu Algarve, pedirei uma taxa de bronzeamento. Porque se isso for para a frente, ficam provas dadas de que afinal, o Sol quando nasce, não é para todos e eu… já agora quero uma parte maior.

Concessionar os “areais”? E… não quereis mais nada, não?

Selma NunesMaiNada

BLOG COMMENTS POWERED BY DISQUS