Solta-Mente: Na Guerra de Roupão

Solta-mente
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Assim que a noite caiu, a escassa humanidade que ainda transitava pela rua absteve-se de o fazer, dando prioridade ao meio silêncio com cheiro a medo e a obediência civil. Os ramos das árvores dobravam-se sobre si mesmas ao som de um qualquer concerto de metal com o vento como baterista. O vazio de vida humana só era quebrado pelo som de uma televisão longínqua, ecoando a voz do jornalista da noite.

Estado de Emergência, disseram. As pessoas e o medo, o distanciamento social e a lavagem das mãos, o uso de máscaras e os números de infectados, deste país, do outro país, do resto do mundo, a mortalidade, as luvas e uma panóplia de novos termos que agora faziam parte da nossas realidades e que repetíamos como se existissem entre nós, desde sempre. A humanidade em cheque pela sua própria sociabilidade.

E é este o contraste que me choca mais. Olho a rua silenciosa, quando por todos os meios de comunicação é gritante que nada é suficiente: a economia, a justiça, a polícia, pessoal de saúde, camas, ventiladores, que ninguém parece obedecer, a vacina que tarda, os materiais que apreendidos de um país para outro, que estão muitas pessoas de férias, que deviam partir-se dentes de pessoas que andam na rua, que a Europa vai cair a seguir aos Estados Unidos. Daqui só vejo vento e silêncio humano.

Estou muito pensativa. Vejo o mundo através das ruas silenciosas e de toda a informação que me parece fidedigna ao dispor. Não gosto de extremismos. Levanto-me do sofá e coloco as mãos geladas nos bolsos do fato de treino. Alguém passa lá em baixo sozinho. Olha para cima. Deve pensar que tenho uma crítica no bolso. Não tenho. Tento não julgar o que não sei. Estou a pensar o que dirá a História de nós, daqui a uns anos.

A Guerra do Achatamento da Curva foi, em parte, travada de roupão por uma sociedade ansiosa que não parava de fazer bolos e de contar as vezes que o vizinho saía à rua? Ambas as actividades com direito a fotos e vídeos, como prova.

A outra parte da guerra foi travada por heróis anónimos de bata e por pessoas que andaram na rua só mesmo para fazer coisas. Rua vazia outra vez. Não sei para onde vamos todos e o vento parece estar com pressa de lá chegar. Sei que desta vez o medo ajuda, mas devemos ter cuidado com o que lhe permitimos fazer de nós. Não se deixem levar pelos superpoderes do roupão.

Selma Nunes

GuerraRoupao

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