Solta-mente: "Os 850 Milhões nas Sombras"

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“Os 850 Milhões nas Sombras” está longe de poder vir a ser um clássico literário consagrado, alguns comentadores concordam que a novela estará presente nas nossas vidas e no pequeno ecrã, como se de um drama épico se tratasse. E talvez, ético. Talvez.

Esta densa trama ideológica político-erótica satírica épico-ética começa nos conturbados anos da insolvência nacional, que face às demandas de uma “troika” e de uma política neoliberal centrada em aliviar participação de Estado através de privatizações, se cortou um banco em dois: o bom e o mau. Muita tinta económica depois, começaram as vendas e estas vendas foram feitas com garantias de Estado.

Entretanto, o governo mudou, os portugueses trabalharam muito e a economia cresceu, os ventos estavam auspiciosos, até que aparece uma pandemia que obriga a parar a economia. A oposição deixa de o ser, por imperativa necessidade sanitária, mas depois, acorda.

Ao mesmo tempo, já estavam previstas as transferências das garantias anteriores no orçamento. A oposição começou a fazer o que é suposto (boa e má oposição) e como em todos os grandes amores, fazem-se promessas ambiciosas, tão apaziguadoras como impossíveis de cumprir e chega-se ao clímax, com uma transferência de 850 milhões, sem que a prometida auditoria fosse feita, porque afinal, não era necessária. Isto pode dar como finda uma temporada, em estrondo, com quebra de promessas e de confianças, lágrimas, desamores, enfim…

O core do episódio começa na Assembleia da República, em grupo, e que se prolongou noite fora, a dois, com os jornalistas à espera, ao frio, do fim de uma reunião, para uma declaraçãozinha e para tentar perceber quem é o herói e o anti-herói, ou se vem dali um admirável mundo novo.

As emoções estavam ao rubro, pois pensava-se ser o episódio final de uma temporada, e porque podia ser desastrosamente excitante (como na Guerra dos Tronos). Contudo, não foi assim. Afinal, apenas anunciaram mais episódios, dando uma nova volta à narrativa. Por sinal, a temporada ainda está a meio e os jornalistas ficaram gelados de estar a olhar para a porta. No meu imaginário, jantaram sandes de frango enquanto esperavam. Estavam frias, também, as sandes. E esta foi “850 Milhões nas Sombras”, já muito depois do lusco-fusco, uma novela que tem arrebatado os bolsos dos portugueses já desde o tempo da “Troika”.

Selma Nunes

MilhoesSombras

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