Solta-Mente: As coisas que me fazem pensar

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Não vou falar de nada em concreto. Há demasiado disso nas televisões. Sei que já vos contei que me embrenho à brava em ficção. Ultimamente, fujo da maioria das séries americanas. Na maior parte adivinho-lhes já a narrativa, os clichés, o ritmo. Se antes até gostava, agora, regra geral, adormece-me e prefiro ser surpreendida com outros lugares, outras culturas, outros ritmos narrativos. Europa e não só. Há uns tempos embrenhei-me numa série sul coreana fantástica sobre corrupção. Densa. Mental. Deixou-me a pensar.

Pelo que fiquei a pensar: tudo começa com um pequeno favor directo ou indirecto, um contacto na agenda, uma coisa sem importância, um jantar, um presente, qualquer coisinha e geralmente, na raiz disso está a dificuldade abjecta de separar o individual, as ambições e fervores, gostos e desgostos pessoais, daquilo que é do foro profissional e que aí devia ficar trancado.

Já motivos, há para todos os gostos. O habitual tríptico carreira, poder, dinheiro, claro, mas escava ainda mais fundo nas rachaduras do carácter: a fanfarronice, a vaidade, a subserviência visceral, o medo de ir contra a maré a solo. Porque falo nisto? Porque por cá não é diferente! Porque todos os dias vejo pessoas a vociferar contra a corrupção no geral, quando passa na televisão, mas que quando lhes passa à frente da fronha “assobiam para o lado”, acham natural e se lhes for permitido, aproveitam. A pequena corrupção (o favorzinho) é tão má quanto a grande e nada tem de diferente. Altera a ordem natural das coisas… e se beneficia alguém, prejudica naturalmente outra pessoa.

Foi nisto que andei a pensar durante a semana. Não acredito que vivamos num país naturalmente corrupto, senão a coisa estava tão mal que nem era notícia. Contudo, à luz do que já não é novidade há que desnormalizar os comportamentos viciosos e a hipermetropia colectiva sistémica. 

Selma NunesCoisasPensar

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