Solta-Mente: Que Ilha Você Levaria para Uma Pessoa Deserta?

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Eu, que sou feita de carne, ossos, músculos, entre outras coisas, em alguma parte fui moldada pelos finos grãos de areia que fazem ricochete na pele com o levantar do vento na mudança da maré, às vezes sou uma ilha e noutras tenho os ecos da ilha todos cá dentro.

É tanto o barulho que muitas vezes mando calar o salitre, os motores dos barcos, o calor do meio-dia a bater nas marismas e a areia incómoda dentro do sapato, porque não consigo ser inteira, estar em mim, e ouvir tantas coisas ao mesmo tempo, equilibrando outros sons e paisagens que também fazem parte e que considero igualmente importantes.

Não sei o que é uma pessoa deserta. Eu que sou uma pessoa metade ilha e que tenta ser inteira, sei o que são dunas, sei o que é a areia quente, mas não conheço o vazio inóspito do deserto, nem o tenho em mim.

Não saberia que ilha levar a uma pessoa deserta, nem para quê. Também não estou segura de saber o que é uma pessoa deserta.

Atirei a frase que me despenteou pela manhã para as redes sociais e que é o título desta crónica. As respostas, todas diferentes e originais, marcavam uma só percepção: a de que ser uma pessoa deserta não seria coisa boa para se ser ou estar, ou por ser triste, ou vazia, ou ruim, ou perdida. Continuo sem compreender o conceito “pessoa deserta”, nem sei, ao nível de logística, como se acarta uma ilha inteira para alguém. E depois, os desertos podem ter pouca habitabilidade, mas não estão vazios. Os que vi pela televisão estão cheios de areia e calor.

Além disso, e como expliquei antes, tenho em mim tantas coisas diferentes que tenho de as mandar silenciar para me ouvir melhor, que não compreendo como pode haver quem em si se encontre desabitado/a… e até que ponto uma extensão de terra cercada por água poderia contribuir: nunca ouvi falar de um oásis que, embora agradável, transformasse um deserto noutra coisa.

Selma NunesPessoaDeserta

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