História de um tempo imutável no meio da Ria

Solta-mente
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De manhã as gaivotas seguem os barcos de pesca com os seus gritos estridentes, socializantes, esfaimados. Os pescadores vão atirando as entranhas do peixe que vão amanhando pelo caminho e é por isso que elas os seguem, mergulhando e ressurgindo por entre a espuma ondulada causada pelo remar gorgolejante das hélices.

Eles vão conversando e rindo como se fossem garotos. Às vezes a piada é tão privada, o sotaque tão cerrado, as alcunhas tão diferentes que não se percebe o que dizem, apenas se ouvem as vozes. Ao fundo, o matraquear seco de um pequeno trator com grades de cerveja para abastecer um café. No meio dos turistas, alguns carrinhos de compras pesados arrepiam caminho pela passadeira, já com pressa, tanta pressa e o almoço para fazer. São as mulheres. Foram a terra.

“Ir a terra” é ir comprar o que não se encontra “na Ilha”. Porque ser da ilha não é estar na terra. É ser da areia. Só alguém de lá é que sabe que uma vez na ilha, não se está em terra.

Ao meio dia sente-se o calor profundo que vem da areia e o ardor do sol que bate nas costas. Raros são os da ilha sem chapéu. Cheira a fogareiro a atear. Cheira a peixe assado. As vozes vêm das casas. As famílias almoçam.

Depois de almoço os homens descansam da faina. Estiveram acordados a noite toda. Elas juntam-se nos cafés ou aproveitam para descansar, pois foram à amêijoa aos primeiros raios de sol, ainda os galos não lavaram a cara.

Ouve-se o rolar sistemático de dados de pocker e de pessoas a chamar pelos filhos. O calor é brutal, custaria a respirar se não fosse o vento com a maré a encher, que faz ondular as canas que apareceram por ali e resolveram ficar a dançar ao vento. Alguns homens descansam à sombra do sítio mais fresco de todos: a capela. O tempo passa devagar e solto.

Umas horas mais tarde tudo ganha vida outra vez. O último barco já apita no “bico da ponte”, acendem-se fogareiros, as crianças gritam por cada mergulho na Ria e a população observa dos cafés a romaria multicolor de cheiro a cenoura, coco e aloé vera que atravessa a aldeia a correr para o barco. O Sol empina-se atrás de Faro e vai-se encolhendo. Todos têm a pele salgada e quente. Aos pés molhados agarra-se a areia e é preciso bater com força para que salte. Parece que a areia sai dos pés, mas não é verdade. A areia fica-nos entranhada. Somos areia, por mais voltas que se dê à ampulheta.

Selma Nunes

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