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O porquinho nunca mais vai ser o mesmo – as feiras…

Solta-mente
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“Mais uns dias, conta-se o que tens por aí. Lamento que tenhamos de te partir, mas não podias ficar com os trocos dos recados para sempre dentro dessa barriga de porquinho de barro. Com o que aí tiveres, vou andar em todos os carrocéis, antigos e novos e ainda não vou ter mãos para tantos brinquedos diferentes, em especial daqueles que se dão corda, que acendem luzes e fazem barulho e que não se veem em mais lado nenhum a não ser na feira.”

E além dos brinquedos eram as porcarias comestíveis: algodão doce, pipocas, farturas...

Fui crescendo e a Feira de S. Miguel perdendo o tamanho e a importância. Talvez por estarem a vender o que se vende por aí todo o ano, um pouco por todo o lado. Não tem o efeito novidade. Não cheira a festa, com ou sem porquinho, falta aquele “que” especial que nos detonava os sentidos infantis. Ou então, perdi essa inocência com o último balão que se foi perdendo para sempre no céu, sobre o meu olhar ansioso. Os meus balões eram sempre vermelhos. Não me lembro de chorar por isso. Recordo, sim, de pensar se haveria uma terra para onde fossem os balões perdidos. Se o meu balão estaria agora nas mãos de outra criança, como acontece às coisas que às vezes apareciam na costa. Onde estaria agora o meu balão?

Sonhava inocentemente, e confesso que um pouco influenciada pelo balão do Willy Fogg, dos desenhos animados, que o meu balão provavelmente daria a volta ao mundo, porque sim, embora pelo trajeto conhecido eu o tivesse visto mais perto da lua.

Confesso que havia uma coisa que me perdia e não era comida, nem brinquedos. Não! Adorava as senhoras das mantas, colchas e atoalhados, em cima de uma carrinha com uma centena de enxovais, microfone em punho que gritava pelos clientes: “Paga duas, leva uma… não… estou a brincar, freguesa, leva esta e ainda lhe oferecemos esta toalha de mesa! Ó Zé leva a toalha à senhora! Mais alguém? Ah freguesa, isto é que é qualidade! Nunca se casem, que depois é isto, homem mexe-te! Se ainda assim casarem, estes lençóis de… ”

Eu perdia-me a ouvir aquilo, hipnotizada com a lengalenga e quando dava por mim, tinha perdido o rasto da família. Era tão frequente que já se voltava atrás a essas carrinhas, adivinhando-se onde eu estaria. “Ah freguesa!”

Talvez visite a feira de Santa Iria este ano, em Faro, de 16 a 25 de Outubro, no Largo de São Francisco, que ainda tem muitos produtos regionais para mostrar e vender. Já não parto o mealheiro, mas gosto, quando há o que ver. Não sei o que aconteceu à Feira de S. Miguel, para perder assim a importância e o tamanho. Fazia parte da estação do ano e do imaginário.

Selma Nunes

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