Os que remendam e os que não se emendam – os buracos de quem quer matar a pesca artesanal

Solta-mente
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Tem um instrumento a que chama “agulha”. É um objeto de plástico laranja, antigamente, feito de madeira, que serve para o fio não empeçar, e que permite trabalhar com mais agilidade. Alguns metros de fio ali enrolados naquela agulha, que não tem ponta e que se move com a rapidez de um peixe dentro de água e dá voltas e voltas e faz nós, e que faz tudo para sanar o buraco que havia na rede e tudo aquilo com uma precisão milimétrica, quase maquinal, não fosse o olhar de vez em quando desviar-se para longe, para muito longe, algures num horizonte perdido no tempo, onde moram as recordações de uma juventude, ou de outra coisa qualquer, vá-se lá adivinhar o que pensa, por trás daqueles olhos enrugados.

O remendador vai remendando para ajudar, para ganhar, para se entreter, porque o trabalho é um hobby e o hobby é o seu trabalho.

O homem do mar nunca se desliga da pesca. Nunca. É um cordão umbilical sem termo, vitalício, que não cessa contrato por este não ser de papel, por não dissolver em água. Por isso, é diferente.

A malta do mar não encerra o expediente às seis da tarde. A malta do mar é feita de sal e vai ao mar. Novos e velhos e assim-assim, não merecem barras sem socorro a partir das seis da tarde. É bom que não se desprezem as vidas de quem dedica toda uma vida.

É mais que economia. É um sector onde assentam as nossas raízes salgadas. Não penhorem nem a vida dos pescadores, nem privatizem o mar. Há coisas que não devem ser desonradas por decreto. A dignidade e a vida, por exemplo. A saúde pública, outro exemplo. É um atentado à dignidade usar falsas desculpas ecológicas para patrocinar uma aquacultura demente que além de tóxica, desequilibra o ecossistema e não protege senão as carteiras dos mesmos de sempre: dos senhores dos decretos, dos senhores dos pesticidas e dos senhores que trocam a alma por um bolso recheado. Nenhum deles olha para o horizonte à procura de tormenta. Nenhum deles tem recordações. Nenhum deles remenda seja o que for, é por isso que dá buraco.

É por isso que não há consciência. São precisos quatro quilos de peixe selvagem (sardinhas, carapaus, cavalas) para alimentar um quilo de peixe de aquacultura. Os herbicidas e antibióticos utilizados para que o peixe cultivado não tenha doenças fica no mar e na areia. Prejudica o marisco. Não me venham com desculpas. Querem vender-nos barato e hipotecar a pesca artesanal por tostões.

Selma Nunes

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