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Crónica diferente e escrita à mão e que eu não ia publicar… mas…

Solta-mente
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É que escrever sempre me ajudou a pensar, a digerir… e o que se passou é algo que que nos será sempre indigesto. É um mau estar que corrói cá no fundo, provocado por estas semanas negras e de alguma forma, tem de sair e tem de ser agora. Mas não. Aperta a minha mão contra a caneta, mas não sai, nem sairá tão cedo. Está agarrado à pele, no meio desta dita normalidade. Como pó a dançar num feixe de luz.

O nosso magnífico sol bate-me confortavelmente nas costas e apenas uma brisa muito fresca sopra. Só este frio vem denunciando o furacão europeu a que temos assistido. Incansavelmente. Assustadoramente. Todos os dias. As árvores não mudaram de lugar e nem sei como poderá isso ser possível. Nós mudámos. Outra vez. Atrás dos olhos e dos sorrisos tem estado aquilo. Espalhou-se como uma má doença. É grave.

O amargo do fel da traição e a fiel consciência de que mais uma vez o mundo mudou para sempre. E mais uma vez os olhos em descrédito nas imagens repetidas pelos media. Ofensiva cá, ofensiva para lá. Ameaças. Terrorismo. A guerra é infame. Tudo isto é infame.

Pobres dos que sem querer, sem aviso prévio, sem se alistar, sem tomar conhecimento, entraram e entrarão nisto. Em todo o mundo. Todos. Pobres dos que não conseguem escapar disto, daquilo lá e também, agora, do estigma. Os que perpetuam isto são culpados. Só esses.

Enquanto escrevia isto, lembrei-me que haverá quem diga, porque te doem agora estes e não os outros aqui e acolá, no dia X, no ano Y, ontem? Doem-me todos, mas estes estão próximos e dói mais. Estes são eu, podia ser eu. Geográfica, cultural, conscientemente.

Que me desculpem os cínicos das redes sociais que estão sempre com argumentos contra tudo, mas que nunca defendem nada porque são destrutivos de igual maneira. Queiramos ou não admitir, lembrar ou esquecer, fomos brutalizados no nosso cerne, no nosso centro, e a verdade é que doeu, achocalhou cá dentro, porque sentimos que foi pessoal. Podia ser eu.

De onde terá vindo a linha de pensamento defensora do “és por esta causa, atacas todas as outras” que vejo proliferar nas redes sociais, como uma daquelas músicas que só têm refrão?

Deixemos os fundamentalismos para os profissionais, caramba! Como já se notou, há muitos desses. Nesta matéria nem a minha opinião é necessária, aqui a escrever ao sol de novembro, sentada num degrau. É por isso que não pensava publicar isto. Mas enquanto não tiver ido, sei que não escreverei mais nada. (É do estômago)

Doeu, sim. Admito. Mais do que aqui e acolá, no dia X, no ano Y, ontem. Isso faz de mim uma pessoa terrível, provavelmente.

Selma Nunes

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