Céu algarvio

Solta-mente
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faro_88Fomos até à praia de Faro beber um café, deixar frases sobre tudo e sobre nada, frases e meias frases deixadas na areia já gelada de fim de tarde. O tempo a querer começar a arrefecer e presenteadas por um sol poente magnífico. “O céu do Algarve tem uma cor diferente do resto de Portugal”, é me dito exactamente nesse dia. Respondo, algarvia inconsciente da sorte que tem, que nunca tinha reparado nisso.

De tantas coisas interessantes que são faladas numa tarde, uma observação assim deveria desaparecer nas ondas da memória. Mas não! Dou por mim a pensar que se calhar é verdade, enquanto a máquina digital captura o findar de mais um dia, enquanto vou ficando com os ténis cheios de areia, enquanto rio de uma piada, adivinhando o grito de uma gaivota. Dou por mim a ver cair a noite neste nosso céu algarvio, o Sol como uma laranja gigante que incendeia o mar, as ondas pequenas, perfeitas, tubulares que se enroscam por brincadeira contra a areia e a brisa deixa notar a humidade nocturna que vai cobrir todos os sítios, dali a quase nada, mesmo nada.

À medida que as sombras ficam maiores, a areia cheia de pegadas de gente que já passou e eu não sei há quanto tempo e na realidade não é muito importante, vou observando este céu que é o do nosso Algarve e todas as mudanças de tonalidade que o fazem ser especial e sorrio misteriosamente.

É por isso que gosto das conversas à beira-mar. São mais soltas, mais genuínas... e todos os significados acabam por ser perdidos num turbilhão de pensamentos fugidios e de frases soltas que nos deixam a recordação de ter sido um bom bocado. É por isso que ainda somos considerados destino de férias. Porque temos o melhor céu, a água mais quente, as frases mais soltas, o grito adivinhado das gaivotas, enquanto rebenta uma pequena onda nas areias brancas de uma praia, os reflexos alaranjados do Sol no mar como um espelho, em qualquer estação do ano, faça mais ou menos frio. Não é uma questão de clima como muitos podem pensar. Embora este ajude... mas muitos de nós nem reparamos pois não estamos habituados a pior coisa, a pior sorte. E mesmo que esteja  tempo de chuva, a brisa marítima cobre as cidades costeiras, o mar pica-se e revolta-se, mas continua a ser um cenário limpo.

A facilidade de visitar uma praia algarvia em qualquer altura do ano, de ter conversas bem humoradas à beira mar devia ser mais apreciada por nós, “os marafados”. Mas todos  caminhamos no dia a dia debatendo-nos com, contra, a favor das nossas realidades com tanta força que não nos apercebemos que vivemos num paraíso natural... e que temos o melhor e o mais lindo céu de Portugal debaixo das nossas lusas cabeças, que por ironia, defeito ou tradição, teimam em mirar o chão, sempre.


Selma Nunes

 

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