Sete anos depois

Solta-mente
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Espero que esta tão adiada carta te encontre muito melhor do que a última recebida de ti há sete anos. A vida de então não estava a ser muito simpática para contigo e parecia que as leis de Murphy tinham encontrado na tua pessoa uma fiel prova para existirem. Nesse tempo, não soube ser quem precisavas que tivesse sido. Desculpa. Acho até que nunca ninguém soube ser o que a situação exigia. Nem tu sabias quem deverias ser. Ou então sabias e exigias tanto de ti que te desiludias por querer sempre o inalcançável.

De qualquer das formas, ou com tudo junto, não sei bem, as ruas escuras por onde passavas reflectiam-se dentro de ti, arrastando-te para esse buraco sem fundo de perda onde te escondeste e que te escondeu do mundo que no fundo, tanto amavas e querias sentir com todas as tuas forças. Depois sentia-lo tanto que o teu único desejo era deixar de sentir. O grande erro, no fundo, sempre foi a incompreensão de ti mesma, a incompreensão dos que te rodeavam e esse teu grande génio, essa tua fúria de querer saber de tudo, a vontade de experimentar os teus limites, o limite humano, curiosidade essa que te toldava a razão e que arrastava esse pequeno e frágil corpo de rapariga para lugares que sabias não serem bons de andar, mas que te atraíam como imanes. Eras tu, sempre tu, a que queria viver no limite e eu aquela que lia as tuas cartas, porque tu escrevias, menina, e como escrevias! Desde sempre, tiveste no punho que agarrava a caneta a capacidade de transcender o papel e as vãs palavras e ficavas grande, maior que tu, pois tinhas em ti a capacidade de imortalizar a folha branca de papel. E é por isso que sorrio quando me dizem que escrevo bem. Eu não escrevo assim tão bem.

No entanto, querias absorver tudo com tanta vontade, o bom e o mau, que te deixaste absorver por esse mal, mesmo tão bem informada e tão inteligente. Quando mo contaste, não consegui esconder a revolta. A minha vida sempre foi fácil, alegre, nunca quis entrar na vida de quem não compreendia. O mundo em que entraste era o mais contrário à minha personalidade alegre. Nunca quis entender o sofrimento humano assim tão a fundo e não percebia porque querias tu que o vazio te preenchesse. E depois fiquei furiosa. Como podias afundar-te numa desculpa tão esfarrapada como a da morte do teu pai e as más companhias para entrares nisso? E culpei-me por não o ter previsto, por não ter visto os sinais. Se nas cartas que escrevias estava lá tudo! Afinal, as metáforas que utilizavas não eram metáforas.

Depois de furiosa contigo (esqueci-me que eras humana) e comigo (esqueci-me que era humana), esqueci-me de ser humana. Fui antes cobarde, e fiz exactamente o que me pedias na tua carta. Não te contactei mais, pois não iria nunca compreender as ruas por onde passavas, pois enquanto eu andava à luz do Sol pelas avenidas cheias de gente, tu saías pela noite adentro e caminhavas pelas ruas onde ninguém queria andar. Envergonhavas-te da tua condição nos raros momentos de lucidez, um deles, aquele em que escreveste essa carta. E eu, a mesma lúcida de sempre, a tentar racionalizar e entender o incompreensível. É assim que caiem os anjos, pensei, ao fim de tanto tempo. Amaldiçoei a hora e o dia em que te meteste nesse mal, amaldiçoei quem te meteu nesse labirinto, amaldiçoei os dias em que buscavas esse escape, essa falsa bengala que só fingia que te amparava e amaldiçoei essa fragilidade emocional e essa impulsividade que nunca te levou a bom porto.

Sete anos depois, amiga, já nem moras no mesmo sítio. Curso e carreira brilhantes pela seringa abaixo (era de seringa?), família incompreensível que se calhar já tinha ido também pela agulha, música, filmes, gostos, tudo o que afinal te tornava especial e no fim de contas, humana, tudo em troca de uma não existência, ou pelo esquecimento da existência que mais dor que alívio te provocaram. E a vergonha, pois na carta que escreveste, tinha-la... antes de venderes o telemóvel, vendeste a alma e sabia-lo.

Sete anos depois cá estou eu a escrever uma crónica que tu, melhor que ninguém irias escrever. Pelo menos, melhor que eu. Mas caiu o anjo e perdeu-se o génio.

Quanto à tua amiga, levo a minha vida, escrevo estas crónicas, sorrio na maior parte do tempo, como sempre. De cada vez que prendem um traficante, bato palmas. Faço um donativo distraído para uma ou outra associação que nesta altura do Natal pede nas ruas de Faro e espero que te tenhas agarrado a ti mesma e que no final, a tua última carta não tivesse passado de uma metáfora. No dia dos teus anos, lembro-me sempre de ti, embora não maneira de te dar os parabéns. Fico sempre um bocadinho triste (até isso se desvanece um pouco com os anos) e espero sinceramente que estejas a pôr cobro a isso que consomes para que te consuma. E não consigo evitar o sentimento de culpa por não o ter previsto, pois estava tudo lá. Espero mesmo que esta tão adiada carta te encontre muito melhor do que a última recebida de ti há sete anos. A vida de então não estava a ser muito simpática contigo... e tu não estavas a ser muito simpática contigo nessa altura.

A tua amiga


Selma Nunes

 

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