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O Regresso

Solta-mente
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, com as vozes vestidas de agudos e de risota, numa rotina que devia ser a delas, que só podia ser a delas. Ainda assim, alegres. A mochila que trazia fora fustigada pela chuva agreste da capital e continuava molhada, ensopando-lhe o casaco de algodão e consequentemente, as costas. Magoava-lhe os ombros de arrumada à pressa e de tão cheia que parecia querer rebentar mesmo ali.

“Aguenta.”

Estava frio mas não chovia. De facto, até brilhava o famoso Sol algarvio num céu azul como nenhum outro. Perscrutando com o olhar à espera do primo que a viria buscar, ela aguentava ainda o peso da mochila e olhava para o telefone móvel que segurava na mão. As mulheres da estação a rirem cada vez mais alto, mãos nos sacos de plástico com compras, mãos nas próprias mãos onde brilhavam alianças de casamento, em mãos mal tratadas pelos detergentes domésticos usados sem luvas. Uma rapariga adolescente parecia temer que o enorme dossier lhe escapasse pela rua acima, então segurava-o com um abraço, por amor ao estudos ou por distracção, mas o certo é que se abraçava a ele com força, como se esperasse que uma rabanada de vento levasse todas as folhas. Mas não corria nem uma brisa. Não fosse o frio e as decorações de Natal apagadas por ser de dia, e julgar-se-ia Primavera.

Primavera, não... o primo João, que nunca mais chegava com o carro a guinchar porque os travões não lhe pertenciam, com a ferrugem a alimentar-se do raspão de uma batida que já tinha vindo assim da segunda mão, as mãos do primo João seriam a terceira. Mas e o João que se atrasava e ela tão carregada. Tirou a mochila dos ombros perante o olhar curioso de uma criança que passava, mão pequena na mão grande de uma avó. A criança ainda tentou parar para olhar, talvez atraída pela cor da blusa de malha vermelha, mas a avó apressada puxou-a e a criança acompanhou o passo para não se desequilibrar.

Enquanto isso um carro buzinou ao dobrar a curva, chiando ao travar e chiando ao encostar até ficar parado. No lado do condutor um sorriso de cabelo aos cachos.

“Com esse cabelo agora é que estás mesmo um pipi.”

Cumprimento entendido para um sorriso maior. Um matulão de cabelo aos cachos agarra na mochila com uma mão e coloca-a de uma só vez no porta bagagens.

“Ainda andas de mochila. Tu não cresces?”
Troca de sorrisos.
“Pelo menos ajudas com a mochila. Afinal sempre tens algum préstimo.”
Gargalhada.

“Eu sim, mas tu, não sei para que serves. Nem a porcaria do sotaque soubeste perder.”

Se ele soubesse o quanto tinha praticado na última semana, para chegar igual para o Natal.

Ela voltava à sua terra natal, para o Natal, e assim foi, olhando mais uma vez para as senhoras de bracinhos gorduchos que esperavam o respectivo transporte na estação, como em qualquer outra estação portuguesa.


Selma Nunes

 

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