Algarve – transportes públicos e vias de acesso são apenas conceitos

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Ouvi tantas vezes nos últimos dias as expressões “atrair o tecido empresarial”, “qualidade de vida”, “cidadania activa”, “infra estruturas” e “espaços verdes” que as mesmas perderam o significado.

A nossa região necessita realmente disso tudo, em cada um dos concelhos que vão agora a votos. Precisa de mais. Precisa de melhor. Mas, antes de atrair o olhar de quem quer viver e trabalhar e estar no Algarve, investindo o fruto do trabalho para o sumo e próprio usufruto, há que olhar para além dos dias de sol, da proximidade das praias e dos campos de golfe da praxe.

Há que ter condições para que o tecido empresarial se desenvolva. Esse tal tecido desenvolve-se com pessoas e vai muito além dos esforços de um CEO a partir o porquinho mealheiro para fundear aqui os seus investimentos a troca de areia. Lamento. É a verdade.

É bonito de se ver a criação de emprego e oportunidades que vêm melhorar, no fundo, este nosso cantinho cada vez mais votada para a prestação de serviços (espere-se cada vez menos sazonal) mas a realidade é também olhar para além dos números. Olhe-se para as pessoas.

O trabalho por turnos é uma realidade e uma necessidade para um grande número de habitantes da região. Cada vez maior. Isto significa trabalhar fins-de-semana e feriados, folgar a meio da semana, sair do trabalho a horas tardias, ou ir trabalhar a meio da madrugada. Há até quem o faça alegremente.

Menos alegre é o panorama dos transportes públicos no Algarve. Há que ter transporte próprio. Apenas uma empresa de transporte público rodoviário na nossa capital (Faro). Os horários são suprimidos ao fim de semana e feriados. Não servem a região. Não conectam com as necessidades de mobilidade. É extenuante, degradante e depreciativo. Falta de respeito.

Os mini autocarros, que são supostamente verdes por serem eléctricos… não fazem circuitos aos Domingos e feriados. Quem chegue ao aeroporto de Faro às tantas tem um autocarro para o centro da cidade. E dali, para mais lado nenhum, a não ser de táxi, ou de automóvel alugado (ou Uber). É esta a primeira impressão. Desorganização, cansaço, incapacidade de adaptação às novas realidades.

Os preços são de loucos para a oferta de deslocação, quase sempre diminuta e inútil. Pessoalmente, o carro sai-me mais barato, mesmo após despesas inerentes a ter um automóvel. A capital algarvia que se quer não merece os transportes públicos deficitários que tem. A região, muito menos. O “tecido empresarial” precisa de condições de mobilidade. É mais do que campos de golfe e CEO’s apaixonados pelo clima, gastronomia e eventos.

E não vale a pena sequer olhar para a estrada em busca de soluções. A EN125 não é uma solução viável para ninguém e a A22, como todos sabemos, paga portagem. O Algarve merece melhor e está condenado a estar fechado sobre si mesmo pois as vias de acesso não comunicam e estão obsoletas. Os transportes públicos não trazem qualidade de vida nem podem ser a escolha de ninguém que trabalhe nos sectores que estão a criar emprego.

“Qualidade de vida”, “tecido empresarial”, “espaços verdes” são conceitos… quando precisamos de saber é com que verbos de acção estarão colocados. A estrada é longa, mas o caminho não tem sido feito. Parece que tentamos encher uma bóia que está rota, não é?

Selma Nunes

 

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