Divagações pelas vagas, sem vagas, de Setembro

Solta-mente
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Setembro ainda cheira a mar. Outubro também. Não tenho números oficiais, mas pelo meu nível de cansaço, algarvios e algarvias, presumo o vosso… O tempo não pára, mas fomos nós que decidimos, do alto da nossa mortalidade quase imbecil começar a contá-lo. Pior. Fizemos com que o mesmo contasse para nós. A verdade: o tempo é redondo, circula, enrola, nunca acaba, nós sim, vamo-nos acabando uns aos outros e connosco, várias vezes, ciclicamente, até ao fim.

Pior: desresponsabilizamo-nos apontando o dedo ao tempo. E um dia, o tempo aponta-nos o dedo (o do meio) a nós… e fomos. É por pensar nisso e em muitas coisas que agora não me lembro, ou que não consigo descrever como deve ser (talvez por me faltar paz de espírito e meia dose de vontade) que fugi para perto do mar. Não procurei conclusões, nem estava a pensar em estações – uma coisa veio dar à outra, num esforço muito humano e “millenial” de desfocar a mente, mas dei comigo a pensar, (soltamente) que era quase herético escrever sobre contabilização do tempo nesta crónica, ali a paredes meias com o oceano, num bar da Praia de Faro. Volteei, como o tempo. Desfoquei, abstraí…

Dei por mim a olhar para a data de hoje, fins de Setembro, e a pensar numa música muito antiga (confesso que a trauteei com a vozinha secreta cá de dentro. Confesso que não gosto.). Uma canção dos anos oitenta, talvez, não sei (já não sei nada!) que homenageava dolorosa e melancolicamente o mês corrente. “Setembro sabe a mar e a saudade” e a voz de quem a cantava em português quebrava como se quisesse que os grãos de areia chorasse em italiano, para parecer mesmo dramático. Dei por mim a rir e a escrever no caderninho amarelo. Gatafunho atrás de gatafunho. A escrever isto, agora. E isto também, só que no caderno. (Piscadela de olho a quem lê.)

Setembro ainda cheira a mar. Outubro também. Não tenho números oficiais, mas pelo meu nível de cansaço, algarvias e algarvios, presumo o vosso… e pelo nosso, todo junto, creio que estamos fortes desde Maio e que Setembro não foi mês de cantar melancolias, até porque continuamos lotados de loucura estival… e ainda há procura sem resposta.

Não conheço os números oficiais. O sacana do mês ainda nem acabou! Mas… se isto continua assim, poderemos talvez dizer que começámos a dar pontapés nos tintins da sazonalidade (imagem escolhida por ser violenta, sem escolha de género séria) e que a melancolia do por de sol na praia em Setembro é uma foto a preto e branco inventada por nós, tal como o contar do outro tempo, o tal de que vos falava acima.

O “tempo perdido” é apenas uma mudança mental de prioridades e tem menos de contagem que de humanidade imbecil. O outro tempo, ameno, convidativo, continua por cá e se esta verdade for passada a quem tem de esgravatar a neve da porta de casa antes de ir trabalhar, a sazonalidade acaba por ficar ridiculamente obsoleta, como a tal da música, mas sem dramatismo sentimentalão noutra língua quente e mediterrânica que não a nossa, vá lá saber-se porquê.  

Selma Nunes

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