Em busca de Uma Paz que Não Seja Inventada

Solta-mente
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Tumulto e fruto, laranja de felicidade algarvia quase mecânica, todos, debaixo de um calor ainda abrasador de Outubro.

Multiplicados por eventos e praia até que não se saiba se o sal do corpo é gota pessoal ou oceânica, se é derrame de suor, de lágrima ou resto de uma “Marguerita” nocturna.

Quem não mostra alegria não é bonito, nesta realidade semifictícia onde tudo deixa de ter interesse em segundos, porque o interesse é artificial, está na moda e na verdade… é pouco interessante. Porque, porque, porque… o nosso plástico chegou ao sorriso e ao coração e já há ecrãs LCD no lugar dos olhos e botões on/off por Bluetooth para tudo. Sem fios, apagar o histórico, liberta memória, cria nova.

E agora, mais tarde ou mais cedo, depois de pessoas, lugares, eventos cai o pano teatral das vaidades e provavelmente o Inverno. Os corpos tapam-se e descobrem-se outras convivências, conivências e conveniências. O bikini de marca da época passada, comprado em promoção, cosido à mão por criancinhas algures no Bangladesh (antes de um incêndio ou derrocada) é colocado no lixo, sem culpas. Sem memória.

O triste facto é a ignorância de se pensar que é possível viver de extremos e de imagens. É possível, mas não é viver.

Aproveito os últimos raios de sol, prometendo tomar cuidado. Com o sol e com o “prêt-à-porter” social, continuar a saber de onde vêm as etiquetas e preocupar-me, não com a etiqueta pós-moderna, mas com a genuinidade e com a ética, sabendo de antemão que a minha humanidade não é um produto e como tal não deixarei que seja consumida. Pelo menos, sem luta.

De pés bem assentes na areia, as águas calmas da Ria Formosa refletem as luzes da outra margem, bem mais urbana que esta. Felizmente. A noite e o silêncio são tão suaves que consigo ouvir o bulício dos motores, ambulâncias, chiar de pneus e um avião. A linha que me separa de mim mesma é apenas a do horizonte, atravessada por um gigantesco pássaro de metal “low cost”. A noite avança, destemida. Fora da imagem tirada para esta crónica, expectativas, sonhos e humanidade. Na imagem, o escuro, o silêncio… e até um barco que poderia ser… um sapato gigante.

Selma NunesPaz Selma Nunes

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