O Direito a ser Reanimado deve ser visto como um Direito Humano Inalienável e um Dever de Cidadania

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Sociedade Portuguesa de Cardiologia e Comissão Parlamentar de Saúde concordaram na necessidade em mudar o panorama da Morte Súbita Cardíaca em Portugal, alegando que esta pode ser evitável e prevenível, se os passos certos forem dados.

“Podemos estar rodeados de médicos, mas se não temos os meios necessários para socorrer um cidadão perante um episódio de morte súbita, a situação não se vai resolver,” assim sintetizou o flagelo da Morte Súbita Cardíaca em Portugal, João Morais, Presidente da Sociedade Portuguesa de Cardiologia (SPC), numa audiência que decorreu hoje, dia 9 de janeiro, na Assembleia da República, convocada pela Comissão Parlamentar de Saúde, onde se procurou encontrar respostas e soluções para promover a prevenção da morte súbita cardíaca em Portugal.

Em Portugal ocorrem cerca de 10.000 casos de paragem cardiorrespiratória por ano. Segundo dados do INEM, apenas 3% das vítimas sobrevive, o que reflete as lacunas do nosso sistema de socorro pré-hospitalar. Não existe uma cultura de socorro enraizada na sociedade portuguesa e, segundo o INEM, em 57% das paragens cardiorrespiratórias presenciadas não é realizada qualquer manobra de reanimação até chegada do socorro. A área da prevenção da morte súbita cardíaca, no entender dos cardiologistas, está longe de ter uma resposta adequada e é, por isso, um dos domínios onde ainda há muito por fazer. Esta é seguramente uma das áreas em que é possível ter os maiores ganhos em saúde. Infelizmente, e apesar de a Lei estar a evoluir no sentido de combater esta realidade, e de termos um Serviço de Emergência Médica satisfatório, de qualidade e que cobre todo o panorama nacional, um cidadão que sofra um episódio de morte súbita ainda está votado à sorte: à sorte quanto ao local onde decorre o episódio e à sorte de quem está por perto.
 
Se o coração parar, temos uns minutos para fazer um conjunto de manobras, no tempo certo, com o apoio necessário para poder salvar uma vida. É nestes minutos que muito ainda está por fazer. A cadeia desobrevivência, isto é, o conjunto de manobras que deverão ser efetuados quando uma pessoa sofre de um episódio de morte súbita, prevê os seguintes passos: reconhecer que a vítima está em paragem cardiorrespiratória, ligar 112, iniciar de imediato as manobras de Suporte Básico de Vida, aceder e utilizar um Desfibrilhador Automático Externo (DAE) (necessário na maioria dos casos de morte súbita) e manter as manobras até chegada das equipas do INEM que depois continuará os cuidados pós-ressuscitação. Se estes passos não forem executados correta e atempadamente a possibilidade de sobrevivência diminui muito e rapidamente.
 

Assim, o ideal pelo qual luta esta Sociedade é que todos os cidadãos usufruam do direito a ser reanimados, ou seja, que num episódio de morte súbita, e enquanto as equipas do INEM não chegam, os portugueses possam contar com a ajuda de cidadãos com formação para aplicar Suporte Básico de Vida e que possam aceder e manusear um Desfibrilhador Automático Externo (DAE), caso tenham formação para o efeito. Ou seja, formação em Suporte Básico de Vida e DAE e acessibilidade a um DAE.

Ora, a realidade do nosso país não é essa: De acordo com o Registo Nacional de Paragem Cardio-respiratória Pré-hospitalar partilhado pelo Instituto Nacional de Emergência Médica, em 2016, dos 12.000 casos de tentativas de ressuscitação em que as manobras de reanimação cardiopulmonar foram aplicadas, apenas 681 cidadãos chegaram vivos ao hospital, ou seja, há uma mortalidade de 95% “na rua”. Apesar de todos reconhecerem que o número de sistemas de cardio-desfibrilhação em locais públicos dever ser maior, o número de pessoas aptas e com autorização para utilizar os DAE ́s é ainda muito inferior ao desejável e mesmo o número de pessoas com formação em Suporte Básico de Vida é muito reduzido.

Assim a SPC propõe que a Comissão Parlamentar de Saúde patrocine a criação de um grupo de trabalho exclusivamente dedicado ao tema da Prevenção da Morte Súbita com o INEM, Cruz Vermelha, Bombeiros, Conselho Português de Ressuscitação, SPC e outras entidades que, em conjunto, possam avaliar e rever o Decreto-Lei 184/2012 apresentando um conjunto de medidas que promovam o direito de todos os portugueses a serem reanimados. Na opinião da SPC, o Decreto-Lei 184/2012 poderá ser melhorado, uma vez que apresenta lacunas e disparidades quanto à execução e realidade nacional.

A SPC considera ainda que é urgente colocar o tema da prevenção da morte súbita na agenda política e criar campanhas de literacia em saúde que promovam a importância de todos os cidadãos estarem aptos a saber aplicar Suporte Básico de Vida e manusear um DAE, assim acentuando o conceito de cidadania que este tema envolve.

Fonte: SConsulting

 

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