Estudo sobre Insuficiência Cardíaca

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Os doentes portugueses com insuficiência cardíaca têm outras doenças associadas e consomem elevados recursos em cuidados de saúde primários.

  • Mais de 90% dos doentes com IC têm, pelo menos, uma outra doença relevante, sendo a mais frequente (81%) a pressão arterial elevada
  • O custo médio de seguimento destes doentes nos cuidados de saúde primários foi estimado em 552€ por ano

Lisboa, 05 de maio de 2017 – Em 2014, os doentes com insuficiência cardíaca (IC) acompanhados em cuidados de saúde primários tinham uma idade média de 77 anos e mais de metade (58%) eram mulheres. A esmagadora maioria (93%) tinha pelo menos uma outra doença relevante associada, sendo as mais frequentes a pressão arterial elevada (81%), diabetes (32%) e doença isquémica do coração (27%). Os doentes realizaram, em média, 5 consultas com o médico de família e a quase totalidade consumiu medicamentos relacionados com a sua doença cardiovascular, durante esse ano. Em contrapartida, cerca de um terço (35%) não realizou quaisquer exames médicos relacionados com a doença cardiovascular, no contexto do seu seguimento nos cuidados de saúde primários. Em média, o custo de seguimento destes doentes nos cuidados de saúde primários foi estimado em 552€ por ano, sendo a medicação o principal componente deste custo. O consumo de recursos foi mais elevado no grupo etário dos 70 aos 79 anos de idade.

Estas são algumas das conclusões de um estudo realizado pelo Centro de Medicina Baseada na Evidência da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa em colaboração com o Centro de Estudos Aplicados (CEA) da Católica Lisbon School of Business and Economics e financiado por uma bolsa de investigação da Novartis, apresentado no Congresso Europeu de Insuficiência Cardíaca da Sociedade Europeia de Cardiologia, que decorreu entre os dias 29 de abril e 2 de maio, em Paris.

A análise incidiu sobre uma população de 1,9 milhões de utentes que teve pelo menos uma consulta com o médico de família na Região de Saúde de Lisboa e Vale do Tejo durante 2014. Destes, 25 000 (1,4%) estavam registados com o diagnóstico de insuficiência cardíaca. Este valor é cerca de 30% do esperado de acordo com a prevalência da doença em Portugal. A diferença pode ser explicada pelo facto do diagnóstico de IC não ter sido registado (sub-registo) ou realizado (subdiagnóstico) em cuidados de saúde primários, ou ainda, pelo facto de o doente não ter tido nenhuma consulta com o seu médico de família durante 2014.

Para quem vive com IC, os sintomas podem ser muito debilitantes1: dificuldade em respirar (dispneia); membros inferiores inchados devido a acumulação de líquidos; fadiga intensa; tosse / pieira; náuseas; aumento de peso devido à acumulação de líquidos.

Contudo, tendo com conta as co-morbilidades associadas, estes sinais e sintomas podem ser facilmente atribuídos a outra doença, levando a um subdiagnóstico da IC.

A insuficiência cardíaca ocorre muitas vezes devido a uma lesão no músculo cardíaco (o que pode acontecer após um ataque cardíaco), a uma outra doença que afete o coração, ou aa uma lesão contínua e gradual, como consequência de diabetes, hipertensão, doença arterial coronária, colesterol elevado, consumo excessivo de álcool ou abuso de drogas. Na maioria dos casos, a insuficiência cardíaca não tem causa única1,2.

Sobre o Estudo

O estudo foi realizado pelo CEMBE da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa em colaboração com o CEA da Católica Lisbon School of Business and Economics, e financiado por uma bolsa de investigação da Novartis. Contou ainda com a participação de investigadores da Unidade de Cuidados de Saúde Personalizada dos Olivais (Agrupamento de Centros de Saúde Lisboa Central), e da Unidade de Insuficiência Cardíaca do Departamento de Medicina Interna e Hospital de Dia do Hospital de São Francisco Xavier (Centro Hospitalar de Lisboa Ocidental) e NOVA Medical School, Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Nova de Lisboa.

Sobre a Insuficiência Cardíaca

A insuficiência cardíaca é uma situação clínica debilitante e potencialmente fatal, em que o coração não consegue bombear sangue suficiente para todo o corpo. Na maioria dos casos, ocorre porque o músculo cardíaco responsável pela ação de bombear o sangue enfraquece ao longo do tempo ou torna-se demasiado rígido1. Resulta, na maioria dos casos, de um contínuo que se inicia pelos fatores de risco cardiovascular que surgem, hoje, de forma cada vez mais precoce, progredindo para a disfunção cardíaca. Esta pode ser assintomática numa fase inicial, surgindo posteriormente os sintomas. Tipicamente, esta síndrome evolui por episódios de agudização (descompensação da IC) que debilitam a condição clínica do doente, contribuem para o agravamento progressivo da IC e requerem assistência médica urgente. Este contínuo poderá ser interrompido a qualquer momento, de forma imprevisível, por um episódio de morte súbita ou culminar em morte por falência de bomba3.

Referências:

  1. Mosterd A, Hoes, A, Clinical epidemiology of heart failure, Heart 2007;93:1137-1146
  2. Harrison’s ‘Principles of Internal Medicine’, Seventeenth Edition pages 1442 – 1455
  3. Dzau VJ, Antman EM, Black HR, et al. The cardiovascular disease continuum validated: clinical evidence of improved patient outcomes: part I: Pathophysiology and clinical trial evidence (risk factors through stable coronary artery disease). 2006;114(25):2850–70.

Fonte: LPM

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