Festival MED – dia 1 | À descoberta do mundo pelas ruas de Loulé

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Pela sua natureza, o MED é um festival de confirmações mas também de muitas surpresas e descobertas. No arranque de mais uma edição – esta quinta-feira, 25 de junho – o centro histórico de Loulé voltou a tornar-se uma montra da diversidade cultural do planeta. Como se cada ruela e pátio da cidade algarvia nos teletransportasse para uma paisagem distante, mais árida ou húmida, natural ou urbana, conforme o caráter de cada performance. “Deixa-te levar pelo mundo”, sugere o MED. E assim fizemos.

Lala Tamar é uma artista com uma proposta identitária que faz especial sentido num evento como este. Não é que a cantora apresente uma música oriunda de um lugar e de uma tradição muito específica; pelo contrário, ela é a soma de uma série de influências, referências e legados culturais que a tornam autora de uma música pós-fronteiras, que tão bem reflete a era da globalização.

Nascida em Israel, filha de mãe marroquina e pai brasileiro, é descendente de judeus sefarditas expulsos da Península Ibérica no século XV. Cresceu numa casa em que o português do Brasil, o árabe darija e o hebraico conviviam naturalmente. Mas foi quando escutou as gravações etnográficas das mulheres judias de Marrocos que se deixou encantar por uma outra língua, haquetia, quase em vias de extinção, que passou a estudar e a dominar enquanto a envolvia numa música que era uma convergência entre a tradição do Magrebe (em particular, de Marrocos e da cultura gnawa), o legado andaluz e sefardita, e uma produção que por vezes toca no jazz, nos grooves funk ou que vai mesmo à pop contemporânea.

É também através de gestos artísticos como este que despontam a comunhão, a partilha, a empatia. Quando Lala Tamar aparece em palco, diante do Castelo de Loulé, fortificação construída pelos árabes que habitavam a cidade, representa toda uma herança mediterrânica, de encontros e tensões, paixões e deportações, amor e violência, e das muitas vozes femininas que vieram antes de si. “Estou cheia de sede: quero beber o céu, as flores, beber-vos a vocês”, atira como alguém que está sedenta de vida, ainda que já transporte tantas vivências nas suas canções. Após interpretar “Pão com Manteiga”, tema partilhado com a brasileira Bia Ferreira, deixou no ar a intenção de gravar mais faixas em português num próximo álbum. “Inshallah, ou oxalá”, como quem diz que somos todos parte de um mesmo legado.

Os Asian Dub Foundation seriam os protagonistas seguintes. Embora haja um certo caos na forma aparentemente atabalhoada como se apresentam em palco, e na mescla improvável de sonoridades, eles são também o produto muito particular do cosmopolitismo de Londres. Fundados nos inventivos anos 90, com raízes na Ásia e com uma formação que se foi mutando ao longo do tempo, foram amplamente moldados pela cultura soundsystem e pela diáspora jamaicana da capital britânica, tal como foram beber ao punk rock e ao rap, outras linguagens entranhadas na metrópole.

O baixo, a guitarra, a flauta e os beats que são disparados à distância servem de cama para dois MCs debitarem as suas rimas. Dentro da desordem – um desfile de jungle, drum and bass, rap, flautas orientais ou uma pulsante energia punk da guitarra elétrica – no fundo assistimos a boa parte da história da música popular, nomeadamente a revolução sonora que a diáspora caribenha desencadeou em Londres, quando o reggae e o dub ganharam uma natureza eletrónica e se transformaram no jungle, UK garage, grime ou mesmo no drill, influenciando tantas outras coisas. A apoteose de Londres em palco, onde o caril é servido à mesma mesa que as sandes jamaicanas de tempero jerk, numa banda que sempre usou o seu som para provocar consciências, agitar as águas e fazer manifestos políticos.

Ainda foi possível espreitar os Tangomotán, quarteto parisiense que evoca a memória de Gotan Project ao apresentar um tango com uma roupagem eletrónica, simultaneamente moldado por uma formação clássica europeia, que foi ganhando diferentes tons ao longo da performance, chegando-se mesmo a ouvir um tango drill (com direito a coreografia e tudo).

De seguida, Lura apresentava o espetáculo de celebração dos seus 30 anos de carreira. Ladeada por uma série de instrumentistas dotados (de João Gomes a Iúri Oliveira, passando por Rodrigo Correia), é uma das vozes da diáspora cabo-verdiana que têm levado a música e a cultura do arquipélago atlântico pelo mundo.

Com canções assentes nas raízes, dos ritmos do funaná e do batuku ao lamento da morna, Lura é hoje uma das mais consistentes divas de Cabo Verde, um legado que a própria artista se esforçou para aprofundar e descobrir ao crescer em Portugal, longe da terra mãe. Em três décadas de percurso, são muitos os temas com que contribuiu para o cancioneiro da nação crioula, mas será sempre difícil destronar “Na Ri Na”, o seu mais emblemático hino.

Tínhamos outras duas viagens marcadas para a primeira noite do MED. Fomos até à América para beber do reggae dos Groundation, formação liderada por Harrison Stafford que tem origem no circuito académico norte-americano do final dos anos 90, antes de se ter tornado uma banda popular no circuito internacional do reggae. Com uma forte componente jazzística, apresentam um reggae ligado às raízes e à tradição jamaicana mas com uma sofisticação musical notória – o que também nos mostra que os géneros musicais têm vida própria e que podem despontar artistas e circuitos em diferentes sítios do planeta; o que é, além de inevitável, particularmente saudável, desde que não haja uma desvirtuação ou uma falta de consideração e respeito para com as origens de uma determinada música e movimento cultural.

Depois, os turcos Lalalar arrebataram-nos com o seu rock de pista de dança, com uma pulsão industrial, uma eletricidade punk e batidas que ora provocavam o abanar de cabeças (e de consciências), ora faziam balançar os corpos. Como se o mais irresistível do rock n’ roll – as linhas de baixo gordas e hipnóticas, as guitarras enfeitiçantes – fosse usado como ingrediente biológico de um DJ ao comando da pista, numa estética que também evoca o psicadelismo e as melodias orientais da Anatólia. Também Istambul é uma metrópole de múltiplos legados e referências culturais, o que ajuda a explicar este portento sonoro chamado Lalalar – que ainda por cima tem como vocalista uma figura magnética, Ali Güçlü Şimşek.

O MED ainda agora começou e já nos fez percorrer o mundo.

É só deixarmo-nos levar.

CM Loulé