Dizem os ecos que estão a ser criadas condições para uma queda do Governo por desgaste prematuro a trote desta crise pandémica e económica. Uma queda de maduro… prematura. Como ninguém quer puxar a si a culpa dessa irresponsabilidade em tempo de crise sem igual, vão-se colocando umas tormentas pelo caminho, para ir dificultando o navegar, mas de modo a que toda a gente culpe a chuva e não o Neptuno.
Enquanto isso acontece, vamos arrepiando caminho para a escolha de Presidente, cujo resultado é à partida tão surpreendente que a emoção reside toda em quem fica em segundo e terceiro lugares. Assim, o que me parece é que os palcos estão a preparar-se para lutas tórridas, brevemente nas autárquicas, e quiçá, mais qualquer coisinha. Está por todos os jornais, artigos e mais artigos sobre o desgaste do Governo. Não estou a inventar, apenas a contar as vidas de Costa.
Até aqui, pelos nossos algarves, ressuscitam as juventudes partidárias, de várias cores, de barlavento a sotavento. Juventudes estas que estavam adormecidas há anos! Espero que não sirvam somente para distribuir brindes e que incentivem os jovens a participar nos actos eleitorais e a valorizar a democracia. Estão a aparecer partidos e listas que só se faziam ouvir em centros urbanos populosos. De todos os quadrantes. Basta ir ver as notícias regionais: entre Outubro e Novembro a coisa está ao rubro.
Apesar dos prémios de melhor de destino turístico de praia a situação está ruim devido à forte dependência do sector mais afectado pela pandemia, que já de si, em tempos óptimos, carregava o ónus da sazonalidade. Em 2020 faltou tudo e a recuperação será lenta, para os que recuperarem. Vamos ver que tipo de corridinho algarvio vai ser feito por cá e que soluções se preparam para um Algarve submerso numa tempestade sem precedentes e que exige marinheiros sérios, que façam realmente a diferença. Cuidado, incautos, não baixem a guarda.
Tem sido difícil arranjar tema para o riso e para a escrita quando não vejo nem vivo coisas novas, entre casa, trabalho, álcool gel, notícias e zero vida social. O que é maçador está a ficar tão habitual que nem para mim, que sou dotada de sentido de humor fácil, tem piada. A imaginação vai murchando. Água a mais para vida a menos. Enquanto ando nisto, chove e o nosso Algarve inunda.
Enquanto vejo a chuva a cair e a formar rios onde estavam as ruas, na tv, o outro Rio anda a construir pontes desventurosas, das que eu (e muito boa gente) não gostaria de ver a nossa República atravessar. Preferia que arregaçasse as calças, como a senhora que se esforça por chegar a casa aqui na minha rua. Vejo daqui o resumo da votação da Assembleia da República e nem nas minhas deambulações interiores mais férteis, cheias de cenários imaginários improváveis, há tanta confusão. É tão mau que nem tem piada. E pela janela, vejo que os sifões de esgoto já passaram à história, mas a vizinha lá chegou a casa. Moral das duas histórias: “quem anda à chuva molha-se.”
Enquanto a água das chuvas pouco aproveitada corre para a costa, noto um crescendo virar de costas ao Costa. O poder, se tiver cheiro, cheira ao vinagre das iscas. Tem requintes ácidos, enquanto as pessoas, assustadas e fartas vão ficando com maus fígados. É um trabalho perigoso, este de andar à chuva, pois pode não compensar o esforço. Escrever sobre chuva também, mesmo tendo o privilégio de não me molhar, o jantar ficou frio e continuo à procura do humor disto. E hoje, estou em casa de tolerância, num mundo com cada vez menos. “E lá fora a chuva cai…”
Na semana passada escrevi sobre como o talento para as mirabolantes teorias da conspiração actuais podia ser desviado para incrementar a nossa tão necessitada produção nacional e que essa mesma arte deveria ser “pro bono”. Em nada retiro o que escrevi, pelo contrário, sublinho.
À parte este pequeno à parte, venho em defesa das luzes de Natal. Alegram-me. Este não foi um ano fácil. Obviamente. Apenas um extraterrestre poderá dizer o contrário. Ainda assim, há sempre quem tenha por hábito resmungar de tudo e caia na demagogia de achar que o investimento em luzes de Natal poderia ser aproveitado em ajudar quem foi tocado mais de perto com a crise. Não sei se um e outro investimento são sequer comparáveis e se ia realmente ajudar, ou se a acção não passaria de uma manobra de marketing demagoga para animar as hostes. E isso iria ser mais uma teoria. Pescadinha de rabo na boca, quando a malta quer, a malta arranja sempre maneira de distorcer, não é verdade? O que não faltará nunca: argumentistas pro bono, digo-vos.
O que sei: num ano em que a nossa resiliência está a ser posta à prova, no qual nem a liberdade de ir e vir, abraçar ou reunir está assegurada, gosto de espreitar pela janela e ver alguma normalidade. Alegria, apesar de tudo. Porque é bonito, mesmo quando o futuro é incerto e o cenário, se não negro, cinzento chuvoso. O resto é “whataboutismo” gritado aos sete ventos, por vaidade, por vontade, por feitio, ou por interesses (mais ou menos sombrios). Eu gosto das luzes de Natal. Conforta-me ver alguma normalidade, principalmente em tempos nos quais a dita não tem caminhado entre nós. As luzes de Natal não fazem mal a ninguém. Utilize-se essa energia para algo útil que realmente ajude alguém. “Reclamar faz mal à vesícula.”
Se alguém que trabalhe nos recursos humanos de uma plataforma streaming de séries e filmes, tipo Netflix estiver a ler esta crónica, pois contacte-me, que eu tenho novidades.
Estão lá todos os dias, gratuitamente (ou não) excelentes argumentistas para centenas de episódios de séries apocalípticas sobre humanidade, poder e conspiração. Não procurem mais! Estão ali à mão de semear. Que sejam colocadas essas pessoas num gabinete pouco arejado a escrever a sua ficção para que tenham a atenção que precisam e que parem de arranjar seguidores de rebanho para as notícias falsas e teorias manhosas, espalhando ódios, raivas, desinformação e maluquice. A realidade em que vivemos já é demasiado para assimilar e as tricas não estão a enriquecer ninguém. Alguém tinha de dizer isto. E não, não estou a falar de crítica construtiva, nem de oposição séria e científica, nem de luta por direitos fundamentais: estou a falar dos teóricos, mesmo.
Já agora, levem também alguns actores políticos que se vangloriam da autodestruição com coligações manhosa. Ah, aqueles médicos pela verdade parecem bons para (mais uma) série sobre urgências hospitalares e os jornalistas pela verdadinha podem ir fazer uma série tipo “Newsroom” à portuguesa, pois para isso não precisam de ser jornalistas, nem médicos e assim têm currículo. Basta ler o guião com “feeling”.
Também não gosto do Covid, nem das medidas, nem desta parafernália sanitária toda, mas tenho respeito, por saber hospitais pelas costuras, profissionais de saúde na exaustão e pelas famílias de vítimas: Covid, não-Covid e económicas desta pandemia. Não obstante, não é o facto de muita gente berrar, espernear e negar a situação que vai fazer com que desapareça. Isso, na minha terra, é birra. Não sei como lidar com birra, se alguém souber, que se chegue à frente.