Falidos mas não falhados

0
348
É começo de ano.

Altura de balanços, da recolha de papéis para  os impostos e também para a grande maioria de nós (infelizmente  GRANDE), é uma altura do ano que comporta alguma revolta  porque se  virou o calendário com o saldo a zeros, muitos  de nós com o saldo negativo.

Vale a pena parar para pensar. Começo por me criticar a mim, antes de me querer armar em mestra das finanças dos outros. Sei muito bem que procuramos desculpas para não pensarmos, para não pararmos, mas o problema somos nós mesmos ovelhas atrás do cão, não resistimos, pactuando com a alucinação que nos conduz ao gasto e ao desperdício.

Queremos dormir e as preocupações endurecem a almofada, às tantas temos a cabeça sobre uma pedra, palitos entre as pálpebras, está escuro e os pensamentos escurecem também, às tantas deambulamos na insónia que por sua vez dá a mãozinha à depressão e por fim aí estamos a caminho do médico que nos entende muito bem e acha que precisamos de um químico que nos ajude a dormir porque há que dormir!

Mas o médico dá-nos apenas uma receita, não nos dá um cheque para tapar o descoberto no banco. Toca o telefone, é o lobo esfaimado a estrangular-nos com juros e ameaças. Atrás dos lobos estão as hienas, hihihi, as sociedades financeiras, elas têm o remédio na sua conta em 48 horas sem perguntas. Acedemos sem saber o custo da mézinha. E às tantas as coisas novas produzem em nós uma espécie de nudez hedionda. Tornamo-nos num osso disputado pela matilha prestamista de chacais, esvai-se a magia da sociedade financeira e aparecem os abutres. Não se percebe que cada cem custa duzentos. É a fuga para um buraco inevitável que nos desgasta, que nos angustia, porque nos habituámos a gastar o que não é nosso, a tirar de uma caixa onde não conseguimos pôr nada porque a caixa do prestamista tem um fundo falso, uma espécie de pântano que nos absorve o bom senso.

Reparem bem os leitores que as pessoas que nos vendem o crédito têm uma cara risonha, voz de veludo, e as que no-lo cobram têm umas ventas medonhas, e ladram e grunhem e quando as coisas estão mal até vestem um fraque e enfiam na cabeça uma cartola de gato pingado dos tempos de Dickens.

Não estará na altura de nos sentarmos calmamente com um papel e uma caneta na mão? Folha branca com um traço a meio, de alto a baixo, à esquerda, a meio da 1ª. coluna escrever um H bem grande de Haver e à direita um D enorme de Dever.

Depois é só ir por aí abaixo anotando o que vier à cabeça. Na maioria das folhas, infelizmente, a coluna do dever parece uma cobra e a do haver parece só uma lesma de couve.

Ora bem, a primeira coisa a fazer é olhar bem a maldita cobra, sacudir os sentimentos de culpa, enxugar as lágrimas e pensar positivo: 

1º. Não deixar que a cobra se enrole à volta do nosso pescoço e nos sufoque; A cobra, afinal de contas, representa na maioria dos casos, compras impetuosas que fizemos, dívidas que contraímos sem antes termos dormido sobre a sua absoluta necessidade, objectos que depois de pagos (se pagos) já passaram de moda. Quantas vezes se odeia um objecto comprado a crédito só pelas preocupações que nos dá e pelos vexames que nos faz passar.

2º. Se por acaso se tratar de objectos que se possam devolver, anulando a dívida, porque não?
3º. Caso a cobra já esteja longa e velha, há que dar a cara aos credores, nunca fugir deles. Um credor feroz amansa um pouco se o devedor lhe aparecer a explicar, se se lhe der cinco em vez de dez, mostrando a intenção de liquidar a dívida. O devedor que se esconde torna o credor muito perigoso. Pensai nisto.
4º. Não há nada que se possa fazer para aumentar o Haver? Não há despesas que se possam cortar, algumas pelo menos durante algum tempo? Há certamente, nem que seja apagar uma luz ou fechar uma torneira, parar o carro, sei lá… inventai!
5º. Fugir a sete pés das compras a prestações;
6º. Olhar bem para dentro de casa e ver a estupidez de coisas desnecessárias que ali temos a ocupar espaço, a criar pó. Coisas, coisas? Não são coisas, são alfinetes que nos algemam ao supérfluo, são a prova da nossa fraqueza, da nossa ganância como consumistas. Às tantas temos que contratar alguém que venha limpar os pertences alheios que se acumulam em nossas casas… Isto não é caricato???

Não somos vítimas-coisa-nenhuma. Somos caloteiros, somos descuidados, somos pobres de espírito porque deixamos que vendedores de meia tigela treinados para nos desgraçar nos desgracem mesmo, nos anulem perante nós mesmos, algemando-nos à infelicidade de ter o que não nos pertence e vivermos sofrendo horrores porque não podemos pagar.

E vendo bem, até mesmo o que está pago não é nosso. Só é nosso a valer aquilo que nos é dado à nascença ou o que conquistámos com a nossa força: a vida, a saúde, a dignidade. O resto?

O resto é o reino da velhacaria, a velha história dos vendilhões e dos palermas que se deixam levar porque, porque sim.

Bom ano de 2010.

jl

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.