Com avô paterno alentejano que se fixou em Barão de São Miguel onde abriu uma oficina de conserto de sapatos, Deodato Santos nasceu em Lagos em 1939. Na Escola Industrial e Comercial aprendeu a trabalhar a madeira com Mestre Américo, o barro com Mestre António da Luz e a escrever com Zeca Afonso.
Viveu em Paris e depois em Genebra por altura do Maio de 68. Em Genebra foi animador cultural e teve um teatrinho de bonecos a que deu o nome de “O Teatro de Mestre Deodato” (tal como era conhecido o seu avô). Foi também em Genebra que conheceu Inge Wolff, uma jovem universitária alemã.
Chegados a Portugal e a Lagos em 1973, Deodato e Inge compraram um terreno em Barão de São João com a intenção de se dedicarem à agricultura biológica e à ecologia. Inge, com 22 anos, foi a primeira estrangeira a fixar-se em Barão de São João. O terreno era afastado da aldeia, escarpado e de difícil acesso; nele colocaram uma tenda e começaram os trabalhos de construção do caminho e da casa com a ajuda da população.
Quando, em 25 de abril de 1974, ouviram pela rádio francesa que tinha havido um golpe de estado em Portugal, Deodato desceu a ladeira, entrou numa das poucas casas que tinha televisão e declarou aos presentes que iria empenhar-se no processo de transformação. E de imediato deitou mãos à obra antes que as forças políticas organizadas o fizessem. Exonerados que foram os políticos das Juntas de Freguesia, auto propôs-se para a Comissão de Gestão de Barão de São João. Mais tarde foi designado Presidente da Comissão de Recenseamento da Freguesia, responsável pela inscrição dos eleitores para a eleição da Assembleia Constituinte, que teve como objetivo escrever uma Constituição Democrática. Em Barão de São João foram então inscritos, em dezembro de 1974, 568 eleitores, dos quais quase 92% exerceram o seu direito de voto em 25 de abril de 1975.
Barão de São João era, em 1974, uma freguesia com muitas carências, sem água canalizada nem saneamento básico, e havia tudo por fazer.
Aproveitando a sua nomeação para a Comissão Regional de Turismo do Algarve, criou Campos Internacionais de Trabalho, projeto apresentado num Congresso de Turismo em Lisboa que mereceu a primeira página de alguns jornais. Criado também o Turismo Juvenil, pensou construir um Centro de Cultura e Juventude para o que, com o apoio do Governo de então, foi concedida a desanexação do terreno ao domínio florestal e atribuída uma verba para o início dos trabalhos.
Os jovens, na maioria estudantes universitários alemães que, através da Inge, vieram para os campos de trabalho para viver a liberdade e ajudar a cimentar a revolução, dormiam em tendas da tropa instaladas na escola primária e empenharam-se, com os outros jovens da aldeia, na recuperação de caminhos rurais, na pavimentação de algumas ruas, na construção de fossas comunitárias, na construção do campo de futebol, na colocação da cobertura dos tanques de lavar roupa, no início da edificação do agora Centro Cultural e ainda na ajuda à população em alguns trabalhos agrícolas.
Outros houve, principalmente portugueses ligados a movimentos ecologistas e alternativos, que também vieram para Barão de São João atraídos pelas atividades comunitárias e pela agricultura biológica de Inge e Deodato que foram notícia num texto intitulado “Barão de São João: Experiência Ecológica, Pioneira do Futuro”. E as experiências que estes aqui desenvolveram nos anos seguintes, centradas na ecologia, na agricultura e na construção com materiais naturais, foram sendo divulgados pela principal publicação de ecologia de então.
Alguns dos participantes nos campos de trabalho e também nas experiências ecológicas fixaram-se em Barão de São João e ainda hoje cá vivem e muitos outros para aqui vieram viver depois, ainda por influência de Deodato e Inge.
Foi também na época em que Deodato esteve à frente da freguesia que se criou um grupo de teatro para a juventude e uma cooperativa de artesanato, promovida por Inge com a colaboração de Rosa, uma jovem dinâmica da aldeia. Esta cooperativa envolveu mais de 60 mulheres e 1 homem da povoação, vendia grande parte da produção para a Alemanha e sobreviveu até meados dos anos 80.
Deodato Santos é escritor, poeta e escultor.
Consta da Antologia de Poesia Portuguesa do Pós-Guerra.
Organizou e participou em encontros de poesia.
Foi colaborador regular (com textos poéticos, ensaios e reflexões) de diversas publicações culturais como os cadernos de Poesia Andaime, a revista diVersos e a revista A Ideia.
Foi redator na Editorial Enciclopédia no Chiado, foi cronista semanal no Emissor Regional do Sul da RDP, foi chefe de redação do Jornal Barlavento, manteve uma crónica semanal no jornal “Notícias da Amadora”, publicou crónicas no Diário do Alentejo.
Continua a escrever em vários blogues, publicando reflexões e divulgando escritores, artistas e atividades culturais.
Foi professor no Algarve, no Alentejo, na Grande Lisboa e na Madeira.
Criou os Serviços Culturais da Câmara Municipal de Odemira e foi animador cultural.
Foi o fundador do Centro Cultural de Barão de São João.
Criou e instalou o Passeio dos Poetas, o Passeio A Ver-o-Mar e o Passeio das Figuras em Barão de São João com a participação de Xico Roxo.
Continua a participar nas exposições coletivas dos Artistas de Barão de São João.
Expôs as suas esculturas em diversos espaços culturais em França e em Portugal, principalmente no concelho de Lagos.
Prémio Retratos do Infante, Câmara Municipal de Lagos, 2010.
Para usufruto de todos, instalou muitas das suas esculturas (em xisto ou construídas com desperdício de madeira, cola e ferro, pintadas por Inge) na Mata de Barão de São João, no seu terreno, nos dos vizinhos, à beira do caminho, e ainda em diversos locais da aldeia e da cidade de Lagos.
Em dezembro de 1976 Deodato Santos concorreu às eleições para a Assembleia de Freguesia de Barão de São João como cabeça de uma lista de independentes, que tinha como nº2 a jovem Rosa. Essa lista não ganhou por poucos votos e Deodato perdeu a Junta de Freguesia. Desde então nunca mais se envolveu na política autárquica, embora tenha continuado a participar e a influenciar a vida cultural da aldeia.
Pelo exposto e pelo muito que ainda ficou por dizer sobre o cidadão Deodato Inácio dos Santos, no ano em que se assinala o 50.º aniversário da Constituição da República Portuguesa e das primeiras eleições democráticas para o Poder Local, a eleita da CDU propõe que a Assembleia de Freguesia de Barão São João, reunida a 25 de junho de 2026, delibere:
- Atribuir ao cidadão Deodato Inácio dos Santos um VOTO de LOUVOR e RECONHECIMENTO pela sua dedicação à freguesia, quer na resolução de problemas básicos da população, quer na promoção do desenvolvimento cultural e na estimulação da consciência cívica, ecológica e comunitária, sempre no espírito do 25 de abril, tendo exercido uma influência determinante na construção do que é hoje Barão de São João: uma comunidade criativa, multicultural, participativa, tolerante e colaborativa.
- Dar conhecimento formal da presente deliberação ao homenageado, à população de Barão de São João, à Câmara Municipal de Lagos e à comunicação social, e publicar na página eletrónica da Freguesia.
CDU Filomena Carmo



