As falhas no abastecimento de água registadas nos últimos dias em Almada vieram recordar que a escassez hídrica é um desafio cada vez mais presente em Portugal e que exige uma resposta que vá além da gestão de situações de emergência. Para a DECO PROteste, é essencial proteger os consumidores que enfrentam estas ocorrências, disponibilizando informação clara sobre como reduzir o impacto da falta de água no dia a dia e garantindo que o País acelera o investimento necessário para tornar os sistemas de abastecimento mais resilientes.
A situação vivida em Almada demonstra que episódios de interrupção ou condicionamento do abastecimento podem tornar-se mais frequentes num contexto de alterações climáticas, maior pressão sobre os recursos hídricos e envelhecimento das infraestruturas. Ainda que este caso resulte de uma ocorrência operacional específica, evidencia a importância de preparar melhor o sistema para responder a situações semelhantes.
Os dados da DECO PROteste mostram que Portugal continua a desperdiçar uma quantidade significativa de água antes mesmo de esta chegar às torneiras dos consumidores. Entre 2013 e 2024 perderam-se cerca de 2 mil milhões de metros cúbicos de água nas redes de abastecimento, o equivalente a meia barragem do Alqueva ou ao abastecimento anual de cerca de 30 milhões de pessoas. Todos os anos desaparecem aproximadamente 166 milhões de metros cúbicos de água já captada, tratada e transportada, representando um desperdício ambiental, económico e financeiro que o país já não pode continuar a suportar.
Também Almada enfrenta desafios estruturais nesta matéria. O concelho está inserido numa zona de escassez hídrica elevada ou severa e, apesar de ter registado melhorias entre 2023 e 2024, reduzindo as perdas de água de 402 para 284 litros por ramal e por dia, continua a apresentar valores que justificam um reforço do investimento na renovação da rede.
Perante este cenário, a DECO PROteste lembra que, embora o investimento nas infraestruturas seja indispensável, os consumidores também podem adotar pequenas medidas capazes de reduzir significativamente o consumo de água em casa e contribuir para uma utilização mais eficiente deste recurso.
Pequenos gestos podem fazer uma grande diferença
Segundo os cálculos da DECO PROteste, uma pessoa pode reduzir o seu consumo diário de água de cerca de 280 litros para aproximadamente 100 litros, recorrendo a equipamentos mais eficientes, como redutores de caudal, chuveiros economizadores e autoclismos de dupla descarga. Trata-se de uma poupança de cerca de 180 litros por dia, equivalente a 36 garrafões de cinco litros.
Entre as principais recomendações da Organização destacam-se:
- privilegiar duches rápidos em vez de banhos de imersão;
- fechar a torneira enquanto lava os dentes ou ensaboa as mãos;
- reparar rapidamente torneiras e autoclismos com fugas, que podem desperdiçar milhares de litros por ano;
- reaproveitar a água fria do duche para lavar o chão, abastecer o autoclismo ou regar plantas;
- utilizar máquinas de lavar roupa e loiça apenas com carga completa e privilegiar programas ECO;
- regar jardins nas horas de menor calor e, sempre que possível, recorrer a sistemas de rega gota a gota.
Consumidores têm direitos que importa conhecer
A DECO PROteste recorda igualmente que o abastecimento de água é um serviço público essencial, pelo que as entidades gestoras têm deveres de informação e qualidade de serviço perante os consumidores.
Sempre que ocorram interrupções programadas ou situações que afetem significativamente o abastecimento, a comunicação aos consumidores deve ser clara, atempada e transparente, permitindo que as famílias possam preparar-se e minimizar os impactos no seu quotidiano.
Além disso, os consumidores devem verificar cuidadosamente as suas faturas, sobretudo após períodos de interrupção ou anomalias no abastecimento, e reclamar sempre que identifiquem valores que não correspondam aos consumos efetivamente realizados ou qualquer incumprimento dos padrões de qualidade do serviço. A reclamação pode ser apresentada junto da entidade gestora e, quando necessário, junto da Entidade Reguladora dos Serviços de Águas e Resíduos (ERSAR).
Poupar água não pode ser responsabilidade exclusiva dos consumidores
Para a DECO PROteste, a crescente escassez hídrica exige uma estratégia nacional assente em três pilares: consumidores mais informados, redes de abastecimento mais eficientes, resilientes, bem como uma maior reutilização da água.
A Organização considera que não basta pedir às famílias que reduzam os seus consumos quando continuam a perder-se milhões de metros cúbicos de água tratada devido ao envelhecimento das infraestruturas. É necessário acelerar a renovação das redes de abastecimento, reforçar a monitorização das perdas, promover a reutilização de águas residuais tratadas e garantir que os investimentos chegam aos territórios onde são mais necessários. Independentemente do atual nível de escassez, a falta reabilitação de condutas é comum a quase todos os municípios, pelo que a situação de Almada pode repetir-se noutros locais.
Num país onde apenas uma pequena parte dos municípios não enfrenta situações de escassez hídrica, proteger este recurso implica uma responsabilidade partilhada entre consumidores, entidades gestoras e decisores públicos. Só através desta resposta conjunta será possível garantir um abastecimento mais seguro, sustentável e resiliente para todos.
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