Acupuntura veterinária: moda ou complemento terapêutico com base científica? 

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Ana-Catarina-Neves

Artigo de opinião de Ana Catarina Neves médica veterinária do AniCura Restelo Hospital Veterinário.

A medicina veterinária evolui rapidamente, integrando muitos dos avanços da medicina humana ao nível do diagnóstico, da especialização e das abordagens terapêuticas. Ainda assim, práticas complementares como a acupuntura veterinária continuam a enfrentar algum ceticismo e a ser frequentemente associadas a abordagens alternativas, mais próximas do bem-estar do que da medicina. Ainda persiste a perceção de que se trata de uma tendência passageira, e não de uma ferramenta clínica com objetivos terapêuticos concretos.

Na realidade, a acupuntura veterinária é hoje uma ferramenta complementar cada vez mais integrada em hospitais e clínicas, sobretudo no controlo da dor, na recuperação funcional, em doenças neurológicas e no acompanhamento de doenças crónicas. Não se trata de substituir a medicina convencional, mas de a reforçar com abordagens que contribuem para melhorar a qualidade de vida dos animais de companhia.

A sua base assenta na estimulação de pontos específicos do corpo – os chamados acupontos – que promovem respostas neurofisiológicas, como a libertação de endorfinas, a redução da inflamação e a melhoria da circulação sanguínea. O resultado traduz-se frequentemente numa diminuição da dor, maior mobilidade e melhor resposta a processos de recuperação, especialmente em casos de osteoartrite, displasia da anca, problemas neurológicos ou recuperação pós-cirúrgica.

Em animais idosos, por exemplo, é comum observarmos uma melhoria significativa na mobilidade e no conforto diário após algumas sessões, permitindo reduzir o desconforto e, em alguns casos, a dependência de fármacos analgésicos. Também em situações de reabilitação funcional em doenças neurológicas – como epilepsia, disfunção cognitiva canina ou apoio a tratamentos oncológicos, a acupuntura pode desempenhar um papel importante, sempre integrada num plano clínico mais amplo e devidamente acompanhado por um médico veterinário.

É importante reforçar que esta abordagem não funciona como solução isolada nem deve ser encarada como substituto de exames, cirurgia ou terapêutica farmacológica quando estes são necessários. O seu valor está precisamente na complementaridade. Tal como acontece na medicina humana, o objetivo não é escolher entre uma abordagem convencional ou complementar, mas encontrar a combinação mais adequada para cada caso.

Ainda assim, persistem mitos e alguma desconfiança. Parte dessa resistência nasce da associação automática entre acupuntura e pseudociência, ignorando a evidência científica que hoje sustenta a sua aplicação em diferentes contextos clínicos. Diversos estudos têm demonstrado benefícios concretos no controlo da dor crónica e na melhoria funcional de cães e gatos, tornando esta prática cada vez mais reconhecida dentro da medicina veterinária baseada na evidência.

A evolução da medicina veterinária exige também uma mudança na forma como olhamos para estas ferramentas. Mais do que seguir tendências, importa avaliar resultados, a sua eficácia, segurança e contributo para o bem-estar animal.

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