Gostos não se discutem, contam-se

0
423
thumbs-up
thumbs-upOs gostos deixaram de se discutir porque agora só gostamos de coisas morais e éticas… e cheias de boas intenções, ou pelo menos com piada, porque na cartilha que um dia poderá substituir um Curriculum Vitae, por ser mais completa e ao alcance mais ou menos público, estão as coisas de que gostamos, como se se tratasse de uma lista de ”a saber”.

Tratamos esse nosso Avatar com mais ou menos perícia e no fundo, acabamos todos (seguindo a corrente maior) a gostar das mesmas coisas, o que me faz alguma aflição, pois ficamos pouco diferentes de uma massa homogénea e cheia de bytes. Sei lá, a um passo de sermos máquinas sociais programadas. Ou anti – sociais desprograma dos.

Eu por “lá” ando, mas gosto de pensar que não me converteu completamente. Se calhar, é apenas algo em que gosto de acreditar.

Como não se discutem os gostos (pelo menos, os gostos que podem ser públicos, em parte porque é feio e em grande parte porque sabemos poder estar a ser vistos e só por isso, há mais cuidados), contam-se os gostos. Nós, como num concurso qualquer de pseudo – popularidade, “por lá andamos” nisto de provocar os nossos amigos com coisas para eles gostarem, comentarem, ou para dizer coisas e quiçá, de um modo humano e quase doentio, preencher a lacuna social (que é causada por isto – doença e falsa cura no mesmo sítio!). E estabelece-se essa comunicação artificial, sem usar quase a palavra. Mudos. Sentados. Deitados. Na retrete. No banho. No trabalho. Na rua… e perigosamente, nos carros. Não!

Ao mesmo tempo, uns mais conscientemente que outros sabemos estar a proporcionar às grandes corporações, instituições, etc… milhares de dados sobre as nossas vidas online, mais ou menos virtuais. E eles não discutem os nossos gostos. Contam-nos, analisam-nos e tratam de criar coisas e de ter ideias que nos agradem e a fazer a economia, ideologias, sabe-se lá mais o quê, girar. Por isso aqui observo, o que provavelmente muitos antes e melhor do que eu já observaram: os gostos já não se discutem (são globais), mas contam-se… e de que maneira.

Não é uma crítica, não veria mal nisso, desde que determinadas barreiras não fossem ultrapassadas. O pior é que são. Abusivamente. Há casos gritantes. Casos de polícia e de serviços secretos. Há pessoas expatriadas, escondidas por denunciar esse tipo de práticas.
Acredito que a maior parte das pessoas não se dá conta que “aquilo” de que falo, não é um brinquedo. Se alguma vez foi… já não é. É um instrumento comunicativo e promocional de proporções absurdamente assustadoras. Informação de todos, de tudo, em bruto e em simultâneo, agora então, em tempo real. As nossas vidas em promoção a preço de saldo em troca de nos escarrapacharmos num mural, ou a ideia que temos de nós reduzida a post-it. É perigoso. É avassalador… e ainda assim, uma pequena tentação.

Selma Nunes

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.