Culatra? Nem com um Tsunami abandonaram a Ilha…

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Foto Cemal
1999. Ano de viragem de século. Soçobravam teorias de fim de mundo. Havia para todos os gostos. Nos “media”, uma chuva de notícias horrendas chegavam da Turquia. O terramoto colossal de Izmit, escala 7.5 Richter vitimou quase 20.000 pessoas (dizem até que foram mais) e foi uma brutalidade sem descrição possível. Um horror. Dias depois, ainda se contavam as vítimas.

Costa Algarvia. Um avião sobrevoa os Algarves, vê aquela coisa enorme e alerta as autoridades para o que poderia ser um Tsunami. Tudo o que se passou a seguir foi digno de filme. Uma autêntica loucura. Um pânico. Tragicómico, porque acabou em bem.

Eu estava com os escoteiros do Grupo 6 de Olhão. Fazíamos a Ria Formosa de canoa em dez dias. Nesse dia estávamos em Olhão. No Grupo Naval de Olhão.

No espaço de minutos, aquilo alastrou-se como uma nódoa de azeite em tecido branco. O telemóvel de proporções gigantes começou a tocar. Todos os telefones, não só o meu. Gritava-se e ninguém se entendia. A rede telefónica sobrecarregada. Da Culatra, a família dizia-me que saísse da Ria pois ia haver um maremoto. Se não tivesse visto todas as pessoas à minha volta a reagir como molas, teria pensado que era uma piada de gosto duvidoso.

A Proteção Civil mandou evacuar praias. A televisão anunciou. O pânico! Mas um Tsunami dá tempo de avisar? Desconfiei. Puxámos as canoas para cima, sem saber lá muito bem o que fazer, como se isso fosse resultar. As pessoas corriam, gritavam, os carros arrancavam, havia quem esperasse a onda munido de máquina fotográfica… enfim, as coisas mais estranhas que se possam imaginar e que as pessoas fazem quando esperam tsunamis. Nós? Incrédulos. “Escoteiro é alegre e sorri perante as dificuldades”

Telefonei para a Ilha. “Então, espera lá, vem aí um Tsunami e vocês não fogem da Ilha?”
Vinha um Tsunami, mas eles não. Nem eles, nem ninguém.

Disseram-me para fugir do grupo naval, mas eu também não fui. Se fosse um Tsunami, mesmo sendo daqueles que avisam e dão tempo de fugir – facto que me estava a fazer confusão – tanto fazia estar no Grupo Naval ou na Av.ª Bernardino da Silva, pois Olhão desapareceria da face da terra junto com as ilhas. Depois veio o tal desmentido.

As pessoas da minha aldeia vivem em cima de uns grãos de areia entre o oceano e a Ria Formosa. Podiam ter sido engolidas por um Tsunami anunciado pela própria Proteção Civil e telejornais. Não arredaram pé das suas casas. Ninguém da Culatra pensou sequer em fugir dali, salvar-se, sei lá! Para os que não se recordam, felizmente foi falso alarme, a onda gigante era uma onda, sim, mas de calor. Anomalamente gigante. Foi um susto com direito a evacuação de praias.

Meus amigos digo-vos, se os ilhéus não largaram a Culatra amedrontados por um Tsunami, que é uma força avassaladora da nossa Grande Mãe Natureza, não se espere que saiam às ordens pouco naturais de um punhado de seres humanos de má vontade. É que não mesmo! Venha o que vier. Até parece que não nos conhecem!

Foto Cemal

Selma Nunes

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