Crónica Pouco Enamorada para um “São Valentim” Dormente

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so valentim 3Esta crónica é a minha maneira de colocar coraçõezinhos na montra, coraçõezinhos voadores em todo o lado, até ao limite do mau gosto piroso. Não, não é uma crónica de amor. Mas podia ser. Podia sim.

Estamos a alguns dias de S. Valentim. Eu cá estava a pensar em romance, em romantismo e nos nossos políticos. Nisso, e não no género literário “romance”, nem na corrente literária que engloba gente debaixo de árvores a ouvir rouxinóis apaixonados. Muito menos, poetas desgrenhados, vestidos de preto, em cemitérios e ruas sinuosas e escuras, presos em paixões dilacerantes que lhes rasgam os corpos mal nutridos. A crónica gótica fica para outro dia.

Tive o desprivilegio de assistir a um arrufo indigno da época de S. Valentim. Um arrufo mais moderno, mais atirado para os dias de hoje, em suma, mais tecnológico. Tinha a ver com mensagens de texto. Um partido da oposição comportava-se como amante enganado e histérico e queria as mensagens de texto de um Ministro para um gestor. Depois um mandou a troca de mensagens e o outro disse que não havia mensagens nenhumas. Gerou-se ali um conflito digno de telenovela para que nós, portugueses e portuguesas percebêssemos a gravidade de um Ministro andar a mentir, quando na verdade tinha mandado… parece uma cena de telenovela de quinta categoria ou não? O pior é que estamos habituados a que mintam. Não é novidade. Infelizmente, não surpreende, nem choca. Passa-me completamente ao largo, como um moscardo em volta de uma maçã, enquanto escrevo, carpindo os desamores da galinha-sultana à beira ria.

Deve ser desta época, estas paixões todas assim de repente! Nos dias normais eu vejo-os pusilânimes, chatos, técnicos, sem garra, quando muito, cínicos, meio trocistas… mas nunca assim. Fica mal o ar de amante encornado digno de horário nobre por causa de uma troca de mensagens.

Só tenho pena é que enquanto perdem quarenta preciosos minutos a analisar se houve ou não mensagens de texto (pelo menos o francês saía de lambreta pela porta dos fundos e isso sim, era vontade à séria!) se estejam a demolir habitações familiares na Amadora em pleno Inverno, sem haver opção de alojamento e contra todas as directrizes europeias sobre demolições no Inverno.

Só tenho pena é que essa vontade raiada de entranhas e fel e grito não passe de tinta de choco. Só tenho pena é que se esqueçam das promessas pré nupciais e que estejam a atraiçoar-nos todos os dias, a viva voz, por sms, por e-mail, eu sei lá. Quero o divórcio.

Dia 22 de Fevereiro dizem começar o pesadelo dos ilhéus. Esses, sim, têm lutado unidos, com garra e paixão contra os sorrisos falsos, palavras mansas, promessas de um amante que se tem mostrado, regra geral, infiel e traiçoeiro. Ninguém quer essas tristes núpcias seja de que cor política forem.

Ilhéus, o meu coração está convosco, como sempre. Oiçam as associações e os apelos das mesmas. Sejam unidos e tomem cuidado convosco.

Selma Nunes

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